CAMPO GRANDE — A Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços recebeu R$ 2,1 milhões da Santa Casa de Campo Grande por um serviço de digitalização que alcançou apenas 9% da meta prevista. Entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, a empresa transformou 3.818.695 páginas de prontuários em arquivos digitais, enquanto o contrato previa 42 milhões.
O cálculo do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) indica que o pagamento correspondente à produção deveria ser de R$ 190.934,75. Mesmo assim, a empresa recebeu o valor integral mês a mês. O contrato considerava uma capacidade de 3.000.000 de páginas por mês e previa remuneração mensal de R$ 150.000,00.
Contrato mantido apesar de recomendação
A presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, manteve o contrato mesmo depois de o Conselho Fiscal recomendar a suspensão do serviço por identificar irregularidades. Ela assumiu a direção da instituição em fevereiro de 2023.
Ao prestar esclarecimentos à 32ª Promotoria de Saúde, Alir teria mencionado sistemas que seriam entregues pela empresa, embora, conforme o Gecoc, eles não tivessem relação com o objeto contratado. Para o grupo, a justificativa teria ampliado artificialmente a complexidade e a vantagem econômica da contratação.
O pedido de prisão apresentado pela 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande e pelo Gecoc afirma que os pagamentos foram feitos integralmente pela Diretoria da Santa Casa sem a execução correspondente dos serviços.
Pedido de aditivo
A investigação aponta que Monique Gregório, supervisora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística (Same), Alessandro Dias Junqueira, fiscal do contrato, e Rinaldo Romano, gestor, atestaram que a meta estava sendo cumprida. Os três foram presos.
Em 23 de maio de 2025, Rinaldo Romano e Alessandro Junqueira também assinaram uma solicitação de aditivo para reduzir a meta mensal de 3.000.000 para um milhão de páginas, mantendo a mesma remuneração máxima mensal. Segundo o Gecoc, a mudança reduziria a produtividade em 66% e elevaria o custo unitário em 200%.
A apuração ainda aponta que Rinaldo Hakme Romano não realizou estudo de preços de mercado após iniciar o processo de contratação. Ele teria recebido a minuta do contrato de Maurício Aparecido Benites, dono da empresa e também preso.
A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna autorizou prisões e buscas. A decisão cita indícios de que empresas usadas nas cotações tinham vínculos com Benites e que o processo não contou com estudo técnico preliminar, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração objetiva de vantagem.
Foram presos Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites. Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva foram afastados de suas funções na Santa Casa e na operadora do hospital, além de proibidos de se aproximar do local.







