CAMPO GRANDE — A Operação Antidotum investiga um suposto desvio de recursos da Santa Casa de Campo Grande por meio de uma rede de empresas e pessoas físicas. De acordo com o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), parte do dinheiro recebido por empresas contratadas pelo hospital era transferida a terceiros e retirada em espécie em operações repetidas de R$ 49.999.
O valor ficava abaixo do patamar de R$ 50 mil citado na investigação como limite para comunicação obrigatória ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Para os promotores, a repetição indicaria o fracionamento das quantias e dificultaria a identificação do destino final dos recursos.
A apuração começou neste ano, após uma denúncia sobre possíveis desvios envolvendo receitas do hospital e do plano de saúde da Santa Casa. O caso alcança contratos firmados na gestão de Alir Terra Lima, que assumiu a Diretoria-Presidência da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande em fevereiro de 2023.
Contratos sob análise
Um dos principais contratos foi assinado em 29 de outubro de 2024 com a Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda. O acordo previa a digitalização de aproximadamente 3 milhões de páginas por mês. Segundo o MPMS, não houve comprovação de que o volume contratado tenha sido executado.
O Conselho Fiscal recomendou o encerramento do contrato e cobrou documentos para verificar a quantidade digitalizada, os períodos de execução e os lotes processados. Conforme o MPMS, a diferença entre os pagamentos feitos e a produção comprovada chegou a aproximadamente R$ 511.390,10.
A investigação também cita a Exbe Tecnologia e Serviços Ltda. e a Infortech como empresas ligadas ao mesmo grupo. O Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) afirma que houve circulação de valores entre as empresas, pagamento recíproco de despesas e uso de pessoas físicas para retirar dinheiro.
Movimentações financeiras
A quebra do sigilo bancário permitiu acompanhar operações posteriores a pagamentos feitos pela Santa Casa em 15 de maio e 25 de junho de 2025. Segundo o MPMS, os recursos eram seguidos por saques sucessivos, sem compatibilidade aparente com despesas ordinárias, salários, equipamentos ou manutenção da estrutura necessária ao serviço.
A investigação atribui a uma pessoa saques e transferências que somam cerca de R$ 2,197 milhões. Também foram identificadas movimentações de R$ 675.999, com 13 saques entre R$ 40 mil e R$ 49 mil, além de recebimentos de R$ 575.380, R$ 955.583, R$ 211.989 e R$ 761.999. Em outro caso, houve 16 saques de R$ 49,9 mil; em um dos registros, foram apontados 14 saques de R$ 49 mil.
A juíza May Melke Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, considerou que a padronização das operações poderia indicar uma estratégia de fragmentação dos recursos. A decisão autorizou medidas da operação e apontou que a movimentação não seria compatível, em tese, com pagamentos empresariais comuns.
Foram presos Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites. O Ministério Público também pediu a prisão de Jary de Carvalho Castro, ex-vice-presidente da Santa Casa, mas a solicitação foi rejeitada.
Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva foram afastados, e mandados de busca e apreensão foram autorizados. A investigação apura suspeitas de peculato, falsidade ideológica, lavagem de capitais, fraude em contratações e organização criminosa.
A Santa Casa informou que atende às autoridades e está disponível para prestar esclarecimentos. A defesa de Paulo da Cruz Duarte foi procurada, enquanto a defesa de Beatriz Lemes da Silva não foi localizada.







