CAMPO GRANDE — A Controladoria-Geral do Estado (CGE) investiga se a Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande (ABCG) usou recursos repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para custear operações de seu plano de saúde privado. A apuração integra o trabalho do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) na Operação Antidotum.
A suspeita inclui a possibilidade de pacientes particulares ou conveniados ao plano terem atendimentos registrados e faturados pelo sistema público. A informação aparece em um áudio atribuído a Alessandro Dias Junqueira, então gerente administrativo da instituição, anexado pelo Ministério Público.
Na gravação, Junqueira menciona a sobreposição entre os atendimentos público e privado. “A gente recebe paciente do privado e fatura pelo SUS, entendeu?”, afirma. Em outro trecho, porém, ele ressalva que não sabe se a prática realmente ocorria e diz que ela poderia acontecer.
A operação resultou em seis prisões preventivas, entre elas a da presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima. Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia. Segundo a apuração do Ministério Público, o prejuízo inicial chega a R$ 4,9 milhões e envolve suspeitas de fraude em contratos e manipulação de dados contábeis.
Documentos não entregues à auditoria
A ABCG detém 99,81% do capital social da Santa Casa Saúde e também realizou investimentos na operadora por meio da transferência de imóveis. Para a CGE, esse nível de controle exigia a apresentação de demonstrações financeiras consolidadas das duas estruturas.
Durante a auditoria, no entanto, a Controladoria afirma que não recebeu os documentos contábeis da Santa Casa Saúde. O chefe da contabilidade informou que as contas de 2025 já tinham sido consolidadas e aguardavam aprovação do Conselho Fiscal, mas o balanço não foi entregue até o encerramento do trabalho.
Sem os dados consolidados, os auditores não conseguiram acompanhar integralmente as operações entre o hospital e o plano privado. A CGE explica que, nessa situação, transações internas deixam de ser eliminadas na contabilidade e podem distorcer ativos, passivos, receitas e despesas.
O relatório também aponta que funcionários da associação são beneficiários do plano de saúde operado pela Santa Casa Saúde. Para a Controladoria, isso gerou transações consideradas significativas entre as duas entidades.
Pagamentos sob análise
Documentos do Conselho Fiscal analisados pelo Gecoc indicam que R$ 9,6 milhões foram pagos em 2025 a empresas vinculadas a Paulo da Cruz Duarte. No mesmo exercício, o plano de saúde registrou resultado negativo de R$ 3,5 milhões.
Desse total, R$ 5,57 milhões correspondem a dez pagamentos de R$ 557 mil descritos como “execução técnica para abertura da filial” em Dourados. O Ministério Público afirma que não foram apresentados contrato, estudo de viabilidade, formação do preço, cronograma, ordens de serviço ou relatórios que comprovassem a realização do trabalho.
A falta das demonstrações financeiras consolidadas dificultou a identificação do caminho percorrido pelos recursos e o esclarecimento das relações financeiras entre a entidade filantrópica e sua operadora privada.







