A relação da professora e bióloga Zielma de Andrade Lopes com as libélulas começou no fim da graduação em Biologia e passou a ocupar diferentes espaços da vida dela. O inseto virou tema de pesquisa, item de uma coleção afetiva, presença em objetos da casa e até nome científico de uma espécie.
Do estágio à pesquisa
A aproximação aconteceu em 1984, quando Zielma fazia o trabalho de conclusão de curso sobre anfíbios e iniciou um estágio no Pantanal. Durante as coletas de campo, ela passou a ajudar um professor da área de invertebrados e começou a observar a biologia das libélulas, seus habitats e sua relação com a natureza.
O interesse levou a bióloga ao mestrado, no qual estudou a distribuição desses insetos na Bacia do Alto Paraguai. O trabalho mais tarde serviu como referência para outras pesquisas. Ao longo da carreira, ela também passou a analisar a presença das libélulas como uma forma de compreender os ambientes onde vivem.
De acordo com Zielma, durante muito tempo esses insetos foram associados principalmente a locais preservados e com equilíbrio ambiental. Estudos posteriores mostraram que algumas espécies também podem ser encontradas em áreas que indicam desequilíbrio, embora a associação com ambientes conservados ainda seja comum.
Homenagem científica
O vínculo ganhou uma dimensão especial quando o professor com quem Zielma havia trabalhado encontrou uma libélula ainda não descrita pela ciência. Taxonomista, ele conduziu a classificação e escolheu homenageá-la no nome da espécie, incluída no gênero Oxyagrion como Oxyagrion zielmae.
O inseto foi encontrado na região de Camapuã, em uma área preservada. Zielma conta que a espécie tem corpo fino, delicado e avermelhado. O material utilizado na identificação foi depositado no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, mas acabou perdido no incêndio que atingiu o acervo em 2018.
A bióloga ainda espera que novos exemplares sejam encontrados. A notícia sobre a homenagem chegou como presente de Natal, em 2015, e virou brincadeira entre os familiares, que compararam a espécie a presentes como joias, bolsas e sapatos. Para Zielma, porém, aquele foi um presente permanente.
Libélulas dentro de casa
Com o passar dos anos, o inseto se espalhou pela rotina da bióloga. Há libélulas em roupas, acessórios, quadros, toalhas, objetos de decoração, pratos, talheres, xícaras, canecas, esculturas, artesanatos e joias. Uma das filhas, que é artista, pintou alguns dos quadros da coleção.
A própria Zielma resume a presença do tema na casa: “Aqui praticamente virou a casa das libélulas, porque tudo tem um toquezinho de libélula”. A paixão também chegou às filhas. Uma delas escolheu uma grande libélula para a primeira tatuagem, em homenagem aos pais e à relação da família com o inseto.
Mesmo depois de décadas de estudo, Zielma diz que continua envolvida com o tema. Ela mantém contato com pesquisadores e destaca que a identificação de uma espécie depende da observação de detalhes muito pequenos, como estruturas do aparelho reprodutor e nervuras das asas.








