A escolha de parceiros pode influenciar a concentração de transtornos psiquiátricos dentro das famílias. É o que indica um estudo publicado pelo JAMA Psychiatry, que comparou dados de mais de 4,2 milhões de pessoas na Dinamarca e encontrou uma correspondência entre os diagnósticos dos casais acima do que seria esperado em uniões formadas ao acaso.
A pesquisa avaliou o chamado acasalamento seletivo, isto é, a tendência de pessoas escolherem parceiros com características semelhantes. No caso analisado, essa comparação envolveu condições de saúde mental e física, além da relação entre os diagnósticos dos pais e os riscos observados nos filhos.
Diagnósticos mais associados entre os casais
A esquizofrenia apresentou a maior semelhança entre os parceiros. Na sequência, apareceram o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno por uso de substâncias (TUS).
A relação não ocorria apenas entre pessoas com o mesmo diagnóstico. Casais formados por parceiros com condições psiquiátricas diferentes também apareciam com frequência. Um dos padrões identificados foi o de homens com transtorno por uso de substâncias que se casavam com mulheres com TDAH.
Em todos os padrões avaliados, a correspondência entre as condições de saúde mental foi maior do que a observada para doenças físicas. O estudo apontou ainda que a combinação não aleatória dos parceiros elevou a prevalência geral de transtornos psiquiátricos em 1,8% e aumentou em 12,5% a hereditariedade familiar, definida como o risco transmitido aos filhos.
Comparação com famílias simuladas
Para realizar a análise, os pesquisadores usaram registros nacionais de saúde e população da Dinamarca. Foram interligados dados do Sistema de Registro Civil, do Registro Nacional de Pacientes e do Registro Central de Pesquisa Psiquiátrica.
A base reuniu 549.541 casais de pais e 822.209 crianças. Desse total, 513.259 tríades formadas por mãe, pai e filho puderam ser analisadas em conjunto.
Como não era possível medir diretamente o que cada pessoa procurava em um parceiro, os pesquisadores utilizaram a semelhança fenotípica como indicador. O método considerou características físicas, sociais ou médicas observáveis e permitiu comparar a presença de condições iguais ou diferentes entre os parceiros.
Também foi criado um cenário simulado de acasalamento aleatório. As mães foram mantidas, mas cada pai foi substituído por um homem escolhido aleatoriamente entre pessoas com idade e local de nascimento semelhantes aos da mãe. Depois, cada casal fictício recebeu um filho simulado com a mesma idade da criança real.
Os pesquisadores calcularam as chances de uma criança desenvolver uma condição quando nenhum dos pais, um dos pais ou ambos apresentavam o diagnóstico. Para isso, usaram funções de incidência cumulativa, chamadas de FIC, e compararam os dados reais com os resultados médios de 1.000 populações simuladas.
Próximos passos
Os casais reais apresentaram uma correspondência entre transtornos psiquiátricos muito maior do que a encontrada no cenário aleatório. O emparelhamento entre condições diferentes foi mais frequente quando um dos parceiros já tinha um transtorno com forte correspondência na mesma condição, como a esquizofrenia.
Os pesquisadores querem verificar se os resultados se repetem em outras populações. A confirmação poderá ajudar os serviços de saúde mental a identificar mais cedo famílias em risco e a desenvolver programas de prevenção e apoio direcionados a esses grupos.








