SÃO PAULO — O impacto mais importante da inteligência artificial no trabalho pode não estar no número de empregos substituídos, mas na capacidade de usar o tempo liberado para ampliar o que os profissionais conseguem fazer. A avaliação foi discutida na conferência Gartner CIO & IT Executive, realizada de 21 a 23 de setembro, em São Paulo.
Executivos analisaram como a IA está mudando o trabalho, a produtividade, os riscos e a criação de valor. Para Tori Paulman, vice-presidente analista do Gartner, o erro foi tratar a automação como objetivo principal, quando a oportunidade estaria em ampliar as capacidades da força de trabalho.
A tecnologia já executa tarefas rotineiras e começa a avançar sobre fluxos inteiros de trabalho. Nesse cenário, as atividades que permanecem com os humanos podem envolver mais exceções, ambiguidade e risco. Por isso, medir o resultado apenas pelo número de tarefas eliminadas ou pelas horas economizadas não mostra todo o efeito da IA.
O ganho aparece quando o tempo liberado permite que o profissional faça algo que antes não conseguia ou melhore sua atuação com mais julgamento, criatividade e capacidade de decisão. O trabalho humano pode migrar da execução para a mediação de decisões e, depois, para a governança dos sistemas.
O que não deve ser terceirizado
Mandi Bishop, vice-presidente analista do Gartner, afirma que, quanto mais autônoma for a IA, menos intervenções humanas serão necessárias, mas cada uma terá mais peso. Entre as habilidades que não deveriam ser delegadas estão o julgamento ético, a visão estratégica, a compreensão do contexto e a capacidade de identificar quando a máquina está errada.
O alerta envolve também a perda gradual de domínio sobre processos pelos quais as pessoas continuam responsáveis. Uma empresa pode acelerar suas operações e, ao mesmo tempo, perder contexto, julgamento humano e conhecimento institucional. Não basta entender como um processo funciona; é necessário saber por que ele existe e em que momento deve ser questionado.
O Gartner estima que 30% dos funcionários demitidos pela substituição por IA precisarão ser recontratados até 2029, muitas vezes com custo maior. A economia gerada pelos cortes pode ser reduzida pela perda de conhecimento institucional e por despesas futuras de recrutamento, treinamento e integração.
As empresas, portanto, precisam definir o que será automatizado, o que terá suas capacidades ampliadas e o que continuará sob responsabilidade humana. Shanna Grafeld, analista sênior do Gartner, resume que a IA só se torna um superpoder por causa da inteligência humana que a orienta.
Capacitação além das ferramentas
A preparação para a IA não se limita ao ensino de novos recursos. O Gartner defende profissionais capazes de se adaptar continuamente à tecnologia, em vez de apenas adotá-la. Tori Paulman também propõe uma cultura em que as pessoas possam questionar soluções aparentemente óbvias.
A previsão do Gartner é que, até 2027, 75% das empresas que transformarem ganhos de produtividade em cortes de custos serão superadas por aquelas que reinvestirem esses ganhos em inovação e capacitação. Nesse entendimento, ampliar a capacidade dos profissionais faz parte da estratégia de negócio.
Outro desafio é evitar a repetição de esforços. Segundo Grafeld, as equipes acabam reinventando o processo a cada novo projeto de IA, o que faz os casos de uso crescerem sem que o valor aumente na mesma proporção. Para gerar aprendizado, cada iniciativa deveria ser mais rápida, barata e segura do que a anterior.
Gabriela Vogel, vice-presidente analista do Gartner, chama de calcificação a resistência criada por processos, sistemas e modelos operacionais. A organização precisa mudar junto com a tecnologia, já que, para Bishop, as empresas não foram desenhadas para o trabalho mediado pela IA.
O resultado dependerá das escolhas feitas pelas organizações. Automatizar tarefas não garante, por si só, que o trabalho ficará melhor. A medida do sucesso pode estar na qualidade do trabalho criado e na capacidade humana ampliada por aquilo que a máquina passou a executar.







