SÃO PAULO — A qualidade e a disponibilidade dos dados são apontadas por 75% das empresas brasileiras como fatores que limitam o retorno dos projetos de inteligência artificial. O obstáculo aparece enquanto a expectativa de ganhos cresce: as companhias esperam obter US$ 24,8 milhões com agentes de IA nos próximos dois anos.
Os dados fazem parte do estudo “The Value of AI 2026”, realizado pela SAP em parceria com a Oxford Economics. A pesquisa ouviu 2.600 executivos de 13 países, incluindo 200 brasileiros, e foi apresentada durante o SAP NOW AI Tour Brazil 2026, realizado em São Paulo nos dias 9 e 10 de setembro.
Investimento cresce, mas integração fica para trás
O investimento médio das empresas brasileiras em IA chegou a US$ 20,8 milhões neste ano, ante US$ 14,2 milhões na edição anterior. A previsão é de crescimento de 46% até 2028.
O retorno médio também avançou, de 16% para 19%, o equivalente a US$ 5,5 milhões. Em dois anos, a expectativa é que esse índice alcance 38%. Apesar disso, somente 3% das empresas afirmam estar totalmente preparadas para implantar e ampliar a tecnologia.
A distância entre expectativa e capacidade de execução aparece em outros indicadores. Embora 64% das companhias estejam satisfeitas com o retorno atual da IA, 65% não estão convencidas de que suas iniciativas aproveitam todo o potencial da tecnologia.
A automação já apoia 26% das tarefas nas empresas brasileiras, percentual que deve chegar a 44% em dois anos. Ainda assim, apenas 18% dos negócios adotam a IA de forma estratégica e integrada, segundo os dados apresentados pela SAP.
Resultados dependem de contexto e dados
Os efeitos das limitações já aparecem na rotina. O levantamento indica que 80% das empresas brasileiras enfrentam, pelo menos ocasionalmente, resultados de baixa qualidade produzidos pela IA. As consequências citadas incluem retrabalho, atrasos e acúmulo de demandas. Além disso, 78% precisaram adaptar a maneira de trabalhar por causa desses resultados.
Para Christian Geronasso, estrategista de IA da SAP Brasil, o contexto é o que diferencia uma solução genérica de uma aplicação capaz de entregar valor. A tecnologia precisa estar ligada a uma necessidade concreta e a uma meta clara.
Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, afirma que o desafio está em conectar a IA aos dados e aos processos que movimentam o negócio. A integração também exige definir o que os agentes podem fazer, quem autoriza suas decisões e como as ações serão supervisionadas e auditadas.
Pessoas também entram na transformação
A adoção da tecnologia não depende apenas de modelos e infraestrutura. Gina Vargiu-Breuer, diretora global de Pessoas e Relações Trabalhistas da SAP, destaca a necessidade de capacitar e requalificar os funcionários para a mudança na forma de trabalhar.
Um exemplo apresentado no evento está fora dos ambientes corporativos tradicionais. A São Paulo Escola de Dança desenvolve com a SAP um “Agente de Ensaio”, ferramenta que apoia testes com diferentes formações de bailarinos, dimensões de palco, movimentos e elementos de dramaturgia.
Textos e desenhos produzidos pelos artistas em um diário de bordo fornecem contexto para a ferramenta. A proposta não é substituir o olhar do coreógrafo nem a interpretação dos bailarinos, mas ampliar as possibilidades de experimentação.
O cenário indicado pela pesquisa combina investimentos maiores e expectativas de retorno mais altas com dificuldades para integrar dados, processos e decisões. Para transformar a promessa da IA em resultado, as empresas precisam reunir tecnologia, contexto, qualidade, responsabilidade e autonomia humana.







