CAMPO GRANDE — Policiais civis investigados na Operação Infiltrados teriam usado rastreadores por GPS, drones e sistemas oficiais de segurança pública para acompanhar cargas de drogas e organizar abordagens. De acordo com o GAECO, parte dos entorpecentes apreendidos seria desviada antes da apresentação oficial.
A investigação aponta que cada policial poderia receber entre R$ 50 mil e R$ 60 mil por operação. O grupo também teria usado informações sobre traficantes, veículos e carregamentos para definir o momento das intervenções.
Rastreamento de cargas
O caso que envolve Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, começou com o atraso de uma carga de cocaína. Segundo o GAECO, ele e policiais civis combinaram, em maio de 2025, a instalação de um “carrapato” — dispositivo de rastreamento por GPS — no veículo que faria o transporte.
A intenção era acompanhar o deslocamento do carregamento e escolher o momento da abordagem. A carga teria sido a mesma apreendida posteriormente por policiais de São Paulo, mas o monitoramento começou antes de o entorpecente chegar ao Brasil.
Em conversas com Maicon Igo Barbosa Moreira, o “Gordinho”, apontado como líder da organização criminosa investigada na Operação Traquetos, LK aguardava um carregamento chamado de “branco”, termo usado para cocaína. O entorpecente, segundo a interpretação do GAECO, estava atrasado para chegar da Província de Chapare, na Bolívia.
A suspeita é de que a ação policial ocorreria de fato, mas apenas parte da droga seria registrada oficialmente. Em uma conversa, LK descreveu a divisão: “nós apreendemos metade e metade pega pra nós”.
Outro episódio envolveu os irmãos Carlos Alberto Alves Fonseca e Paulo Sérgio Alves Duarte. A investigação relaciona a instalação de um rastreador ao policial civil Nilton Cesar Sales dos Santos, que trabalhava na DERF e havia atuado anteriormente na Denar.
Nos dados telemáticos de LK, os investigadores encontraram imagens de um aplicativo de rastreamento em tempo real. O equipamento aparecia identificado como “NILTON DERF”. Em conversa de 1º de junho de 2025, Lucas demonstrou saber a localização de uma Saveiro que passava por Miranda e citou a participação de dois aliados, chamados de “Professor” e “Nilton”.
Consultas a bancos de dados
O GAECO também aponta possível uso indevido do Córtex, plataforma do MJSP, e do Infoseg, que reúne informações de órgãos de segurança, Justiça e fiscalização.
Foram encontradas imagens de consultas feitas no Córtex em 26 de maio de 2025. Uma auditoria no SIGO indicou que, no mesmo período, o policial militar Alison Lemes Bezerra, conhecido como “Daga” ou “Daguinha”, e o policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos consultaram o prontuário da mesma pessoa pesquisada.
Outras capturas mostraram consultas ao Infoseg e foram compartilhadas pelo WhatsApp na mesma data de áudios analisados pelos investigadores. As pesquisas também envolviam Carlos Alberto Alves Fonseca e Paulo Sérgio Alves Duarte. Como não foi possível auditar diretamente o Infoseg naquele momento, os investigadores cruzaram os dados com o SIGO.
Vigilância com drone
Além do rastreamento e das consultas, o grupo teria usado um drone da marca DJI para observar alvos. Fotografias da tela do equipamento foram compartilhadas pelo WhatsApp em 1º de junho de 2025.
As coordenadas -20.524824 e -54.686176 levaram os investigadores ao Bairro Portal Caiobá, em Campo Grande. As imagens mostravam a aproximação de uma residência que, segundo o GAECO, era monitorada durante a preparação para interceptar uma carga.
Em áudio do mesmo dia, LK orientava os comparsas sobre possíveis trajetos pelo Caiobá e pela região do loteamento Bela Laguna. Em 2 de junho, uma fotografia da fachada da residência foi enviada a Lucas pelo WhatsApp.
Para o GAECO, a investigação reúne rastreadores, bancos de dados restritos, vigilância nas ruas e monitoramento aéreo em uma estrutura usada para acompanhar pessoas, veículos e cargas antes das intervenções policiais.







