A Operação Infiltrados levou o Gaeco, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, a investigar policiais civis, militares e penais suspeitos de desviar drogas apreendidas pelo Estado. Deflagrada nesta quinta-feira (24), a ação cumpriu 26 mandados de prisão e 38 de busca em Campo Grande, Dourados e Terenos.
A apuração também alcançou o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Denar e do Garras. Equipes foram até a residência dele, mas não o encontraram inicialmente. A defesa negou fuga e afirmou que o delegado não sabia da operação. Mais tarde, ele se apresentou e passou a cumprir prisão preventiva determinada pela Justiça. O Gaeco ainda não divulgou qual conduta específica é atribuída a Hoffman no esquema.
A investigação surgiu a partir de elementos reunidos nas operações Traquetos e Blindspot. As ações anteriores apontaram conexões entre traficantes, financiadores, transportadores e servidores públicos suspeitos de usar informações restritas para favorecer organizações criminosas.
A estrutura investigada na Operação Traquetos
Deflagrada em agosto de 2023, a Operação Traquetos investigou uma organização envolvida, segundo o Gaeco, em tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O grupo tinha pessoas encarregadas de financiar cargas, organizar o transporte e movimentar os valores obtidos com as vendas.
As lideranças apontadas foram Florisvaldo de Gaspari Favareto, conhecido como Gaspar; Maicon Igo Barbosa Moreira, o Gordinho; e Wellington Aquino Braga, o Tom. Conforme a investigação, o trio participava da aquisição, do transporte e da venda dos entorpecentes.
Com base em Mato Grosso do Sul, a organização atuava em Bela Vista, Ponta Porã, Anastácio, Aquidauana e Campo Grande. As drogas eram enviadas principalmente para Bahia, Goiás e São Paulo. O grupo também contava com batedores e pontos de apoio.
Uma oficina de Florisvaldo Favareto, localizada na Avenida Guaicurus, em Campo Grande, foi monitorada pelo Gaeco durante sete meses. A investigação apontou que o local era usado para preparar veículos empregados no transporte de drogas e armas.
Entre os veículos observados estavam uma Fiat Strada, relacionada ao deslocamento de uma carga de drogas, e uma Chevrolet Silverado flagrada pela PRF com 185 quilos de maconha em Jataí (GO). Segundo os investigadores, os dois veículos haviam passado pela oficina antes dos flagrantes.
Outro investigado foi o pecuarista e médico veterinário Milton Moro Rabesquine. O Gaeco apontou que ele atuava como financiador e teria investido mais de R$ 1 milhão no esquema. Veículos de alto valor seriam mantidos como garantia, e carros ligados ao grupo foram encontrados em sua residência, no condomínio Damha 2, em Campo Grande.
Caminhoneiros e informações sigilosas
Em julho de 2025, a Operação Blindspot investigou uma quadrilha que usava caminhoneiros para transportar cocaína e pasta-base entre Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais. As drogas eram escondidas em mochilas, estepes, cilindros de oxigênio adulterados e caixas misturadas a cargas lícitas.
A operação cumpriu 67 mandados, sendo 37 de prisão e 30 de busca e apreensão. A investigação apreendeu mais de 400 quilos de drogas, incluindo cocaína, pasta-base, haxixe e skunk.
A Blindspot também mirou o policial penal Jonathas Wilson Moraes Cândido. Ele já respondia a outro processo derivado da Operação Courrier, que revelou a atuação da chamada Sintonia dos Gravatas. O grupo reunia advogados e servidores suspeitos de vender favores a presos ligados ao PCC.
Segundo o Gaeco, Jonathas mantinha relação com Edimilson Santos Pereira, apontado como liderança da facção. O policial penal teria compartilhado dados sigilosos do sistema prisional e da segurança pública, consultado placas de veículos e repassado informações sobre operações. Em um dos episódios investigados, ele teria enviado dados de um preso que devia R$ 300 mil ao traficante.
Prisões na Operação Infiltrados
Além de Hoffman, foram presos investigadores da Polícia Civil como Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Douglas Tobias, Neverson Vieira de Araújo, Luiz Carlos de Souza, Nilton César Sales dos Santos e Wesley Benites. Também foi alvo o ex-policial civil Augusto Torres Galvão Florindo, conhecido como Paraíba.
A lista inclui ainda o policial militar Alison Lemes Bezerra, o policial penal Vitor Ribeiro Venancio dos Santos, que já estava preso, Valdenice da Silva Goes e Ana Carolina da Silva dos Santos. Kayon Lucas Leodoro da Silva e Ebert de Almeida também foram presos.
A suspeita central da nova fase é que agentes com acesso às apreensões retiravam cocaína da custódia estatal e devolviam a droga ao mercado ilegal. A investigação, portanto, passou a mirar integrantes das próprias forças responsáveis pelo combate ao tráfico.







