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Quando a ciência transforma a submissão em regra de reconhecimento

Gilson Monteiro questiona a diferença entre submeter o conhecimento à crítica e formar pesquisadores para obedecer a estruturas de autorização.

Quando a ciência transforma a submissão em regra de reconhecimento

A submissão ocupa um lugar central na vida acadêmica, mas seu significado vai muito além do envio de artigos, projetos e relatórios. Para Gilson Monteiro, o verbo também envolve colocar algo sob julgamento, sujeitar-se a uma autoridade e depender da decisão de uma instância. Essa escolha revela uma tensão dentro de uma universidade que defende autonomia, pensamento crítico, liberdade intelectual e emancipação.

A ciência depende da crítica. Hipóteses precisam ser contestadas, métodos examinados, dados confrontados e argumentos expostos ao contraditório. O problema surge quando essa exigência se mistura à submissão do pesquisador a estruturas institucionais que passam a decidir o que deve ser reconhecido como conhecimento relevante.

O endereço passa a pesar

Depois de investigar um problema, o pesquisador precisa descobrir onde publicar. Periódicos, congressos, editoras, indexadores, citações e indicadores começam a definir quais espaços contam. O trabalho deixa de ser avaliado apenas por seu conteúdo e passa a carregar também o prestígio do lugar em que foi aceito.

Critérios de avaliação são necessários para diferenciar ambientes com controle de qualidade de periódicos predatórios e congressos caça-níqueis. A questão, segundo Monteiro, aparece quando o critério deixa de ajudar a avaliar o conhecimento e passa a substituí-lo. Um artigo pode ser considerado excelente e ter sido publicado em um periódico reconhecido. Outra lógica, diferente, é presumir que ele seja excelente apenas por estar naquele periódico.

Esse sistema também educa os pesquisadores. Escopo, template, limite de palavras, normas, linhas temáticas, descritores, idioma, formato, editais, formulários, plataformas e métricas passam a orientar a produção. Aos poucos, surge uma pedagogia da submissão: antes de formular uma pergunta, o pesquisador já imagina onde poderá publicá-la; antes de concluir uma pesquisa, calcula em quantos produtos poderá transformá-la.

Crítica não é obediência

A capacidade de caber em editais, linhas de pesquisa, formulários, classificações e métricas se torna uma competência institucional. Com isso, a pergunta sobre o que investigar disputa espaço com a preocupação sobre o que produzir para ser aceito. O conhecimento que não entra nas métricas corre o risco de ficar invisível dentro do sistema acadêmico.

Monteiro não propõe eliminar periódicos, congressos, revisão por pares, indicadores ou avaliação científica. A questão é construir mecanismos rigorosos o bastante para proteger a ciência sem domesticar quem faz ciência. Autonomia não significa ausência de critérios nem imunidade à crítica. Significa expor o pensamento a uma avaliação rigorosa sem transformar essa relação em obediência.

Para o pesquisador, ter um argumento rejeitado, reescrever um trabalho, reconhecer que um método é insuficiente ou perceber que uma hipótese não se sustenta faz parte da ciência. O contrário da submissão científica, nesse sentido, não é a rebeldia, mas a interlocução: uma relação em que pessoas podem discordar, exigir evidências e apontar fragilidades sem que isso implique submissão intelectual.

Gilson Monteiro é pesquisador da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica do Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo).

Texto produzido pela Redação Casa com Ideia com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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