Cientistas brasileiros estão usando células de centenários e supercentenários para investigar como o organismo se adapta ao envelhecimento. A pesquisa busca identificar variações genéticas e características ligadas à resistência, com atenção especial aos músculos, ao sistema imunológico e à resposta ao estresse.
O estudo é liderado por Mayana Zatz, do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP). Ana Caetano Faria, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Investigação em Doenças Infecciosas e Crônicas das Mucosas e Pele, participa da frente que analisa o perfil imunológico dos voluntários.
No início do ano, Zatz, Faria e outros pesquisadores publicaram na revista Genomic Psychiatry um trabalho sobre centenários e supercentenários. A análise apontou que o Brasil tem 37 mil centenários, número associado pelos cientistas à diversidade genética do país.
Células reprogramadas em laboratório
As amostras são obtidas a partir de algumas gotas de sangue. Com a tecnologia das células iPS, os pesquisadores reprogramam células adultas para que retornem a um estado semelhante ao embrionário. Depois, elas podem ser direcionadas para formar tecidos como fibras musculares, neurônios e células do coração, do pulmão e do sistema imune.
Essa técnica permite criar células personalizadas para investigar doenças e testar tratamentos em laboratório. O método ainda é caro e difícil, segundo Zatz, mas abre caminho para a análise de variações relacionadas ao envelhecimento dos músculos.
Além de movimentar o corpo, os músculos exercem funções endócrinas e metabólicas. Eles também envelhecem mais rapidamente do que outras partes do organismo. Por isso, os pesquisadores pretendem comparar o genoma dos supercentenários que mantêm a musculatura mais preservada.
“Não existe um perfil universal de longevidade”, afirma Faria. Para ela, a diversidade da população centenária brasileira pode revelar diferentes combinações capazes de levar à longevidade extrema.
Amostras de diferentes regiões
Até agora, foram coletadas amostras de 230 centenários e 21 supercentenários. A meta é alcançar 500 pessoas acima de 100 anos. Os participantes têm origens regionais, histórias de miscigenação, hábitos de vida e condições socioeconômicas variadas.
A genética responde por 55% da expectativa de vida, conforme estudos citados pelos pesquisadores. Depois dos 90 anos, a influência dos genes se torna mais importante. Ainda assim, o ambiente e as condições de vida também participam do processo.
A equipe procura descobrir quais variações permanecem ativas nos chamados superidosos. Entre as possibilidades estão características que ajudam o sistema imune a lidar com o estresse, dão resistência aos músculos ou aumentam a eficiência contra vírus.
Sistema imune e envelhecimento
A pesquisa também investiga a imunobiografia, conceito que trata da história de uma pessoa registrada pelo próprio sistema imunológico. Faria explica que esse sistema não atua apenas contra infecções: ele ajuda a regular o equilíbrio do organismo e a responder a estresse, doenças, alimentação inadequada e falta de atividade física.
Com o passar dos anos, o sistema imune tende a perder eficiência. O estresse crônico pode acelerar esse processo e levar à senescência, estágio em que as células perdem gradualmente a capacidade de se dividir, deixam de morrer e se acumulam, favorecendo uma inflamação persistente.
Nos superidosos, essa inflamação crônica de baixa intensidade é atenuada. Isso não significa eliminar toda inflamação, já que ela também participa do reparo e dos alertas naturais do corpo. O problema está no descontrole desse mecanismo.
Um dos mecanismos de compensação envolve os linfócitos T, células que identificam e combatem ameaças específicas. Com o envelhecimento, eles diminuem. Em contrapartida, pessoas centenárias podem aumentar a quantidade de células NK, que atuam contra vírus e células doentes.
A microbiota também entra na análise. Embora se modifique e perca força com a idade, a microbiota dos centenários apresenta microrganismos diferentes dos encontrados em pessoas mais jovens, mas que podem cumprir funções semelhantes na digestão, na imunidade e na saúde geral.
A ciência já consegue medir a idade biológica, que nem sempre coincide com a idade registrada na certidão de nascimento. Nos longevos, o organismo pode ser biologicamente mais jovem do que indicam os documentos, em uma combinação relacionada à genética e às condições de vida.
Os pesquisadores ressaltam que não há alimento, medicamento ou exercício capaz de produzir o mesmo efeito em todas as pessoas. Atividade física, comida fresca, hidratação e convívio social aparecem como elementos associados ao bem-estar, mas o objetivo do estudo é compreender as combinações de genes e hábitos por trás das diferentes formas de envelhecer bem.








