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Modernidade entre o progresso, a dúvida e a responsabilidade pelo futuro

A trajetória da modernidade é revisitada a partir do indivíduo, da razão, do progresso e dos limites éticos do conhecimento.

Modernidade entre o progresso, a dúvida e a responsabilidade pelo futuro

A modernidade mudou a maneira como a humanidade passou a compreender o indivíduo, a natureza e o futuro. Associada ao Renascimento italiano por Jacob Burckhardt, ela foi interpretada como uma ruptura com a visão coletiva e dogmática da Baixa Idade Média e como o surgimento de uma nova consciência individual.

Em A Cultura do Renascimento na Itália (1860), Burckhardt relacionou essa transformação à carta de Francesco Petrarca sobre sua escalada ao Monte Ventoux, na Provença, em 1336. A paisagem, naquele relato, deixou de ser apenas expressão de uma ordem transcendental e passou a integrar uma experiência interna, marcada pela contemplação e pela reflexão pessoal.

Da razão à promessa de progresso

A escalada de Petrarca pode ser lida como uma metáfora da ascensão do indivíduo em direção à autoconsciência. Nos séculos seguintes, essa descoberta foi acompanhada pela convicção de que o mundo exterior também poderia ser investigado pela razão humana.

As Revoluções Científicas do século 17 deslocaram a percepção da contemplação para a investigação sistemática da natureza. A capacidade de conhecê-la e de intervir sobre ela passou a ser vista como um caminho para a construção de um mundo melhor. O processo se relacionou ao Iluminismo e a outras transformações, como a Revolução Francesa e a Revolução Industrial.

A modernidade, assim, não representou apenas mudanças nas artes, na política, na ciência ou na tecnologia. Ela consolidou uma forma de interpretar a história como uma trajetória orientada para o futuro. O progresso deixou de ser uma possibilidade entre outras e passou a ser tratado como aspiração histórica, capaz de levar às gerações seguintes mais conhecimento, liberdade e domínio sobre a natureza.

Essa confiança se apoiava na associação entre racionalidade e progresso. O futuro passou a ocupar o lugar central da esperança moderna, como horizonte de condições melhores para a humanidade. A ideia, porém, trouxe questões sobre a autoridade de uma ordem construída pelos próprios seres humanos e sobre a possibilidade de existir um aperfeiçoamento linear e irreversível.

As críticas ao progresso

A partir das primeiras décadas do século 20, guerras, crises socioeconômicas, regimes totalitários, dependência tecnológica e degradação ambiental fortaleceram a desconfiança em relação à promessa de progresso. Os avanços científicos e tecnológicos, a melhora das condições materiais de vida e a consolidação de sistemas democráticos coexistiram com a percepção de que conhecimento, razão e progresso não garantiam uma trajetória permanente de prosperidade.

Karl Löwith foi um dos críticos dessa concepção. Em Meaning in History (1949), afirmou que a modernidade não rompeu completamente com a visão teológica da história. Para ele, os dogmas antigos teriam sido secularizados e reorganizados em torno da racionalidade. A busca pela salvação divina teria sido substituída pela expectativa de um futuro mais virtuoso.

Oswald Spengler levou a crítica a outro ponto. Em O Declínio do Ocidente (1918-1923), questionou a própria existência de uma história universal. Em vez de uma trajetória comum, as sociedades teriam caminhos próprios, semelhantes a organismos que nascem, florescem, amadurecem e declinam. Nessa visão, o futuro não representa necessariamente aperfeiçoamento e também pode conter a decadência.

Hans Blumenberg apresentou uma resposta diferente em The Legitimacy of the Modern Age (1966). Para ele, a modernidade não seria apenas uma versão secularizada de dogmas medievais. Ela teria surgido quando a ordem medieval deixou de oferecer respostas satisfatórias para determinados problemas, em meio à crise da escolástica e à perda de uma ordem cosmológica e metafísica capaz de conferir sentido à existência.

A legitimidade da modernidade, nessa interpretação, não depende da descoberta de uma verdade definitiva. Ela está na responsabilidade humana por uma tarefa antes atribuída à transcendência. Se a história não possui uma direção garantida, cabe à humanidade assumir o compromisso de orientá-la.

Um projeto ainda em construção

Alexandre Koyré observou que a ciência moderna nasceu de uma transformação na percepção da realidade, e não apenas de inovações técnicas. A própria modernidade pode ser entendida de modo semelhante: mais do que alterar estruturas e normas, ela reorganizou a maneira de conceber a existência humana.

Na segunda metade do século 20, Jürgen Habermas diagnosticou a modernidade como um projeto ainda em construção. Sua crítica ao ceticismo radical se concentrava na confusão entre a racionalidade voltada ao domínio técnico e a razão em sua dimensão mais ampla. As promessas de emancipação, justiça e liberdade associadas ao Iluminismo não deveriam ser abandonadas, mas submetidas à autocrítica.

Hans Jonas acrescentou a esse debate a necessidade de uma nova ética. Em O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica (1979), afirmou que as ciências e tecnologias modernas mudaram radicalmente o alcance da ação humana. Por isso, seus efeitos futuros deveriam ser considerados antes da aplicação de novas tecnologias.

Para Jonas, o desafio não está apenas em produzir conhecimento, mas em administrar o poder que ele gera. O mesmo conhecimento capaz de emancipar também amplia a capacidade de destruição. A ética, portanto, precisa preservar a humanidade e enfrentar o imediatismo, o consumismo e a busca por satisfação instantânea.

A universidade aparece como uma das expressões mais sofisticadas desse projeto. Ela preserva o conhecimento acumulado, mas não o transforma em dogma. Sua função também é cultivar a dúvida, permitir que cada geração ultrapasse o que recebeu e manter aberto o campo do que ainda não pode ser imaginado.

Nesse sentido, a universidade não garante que o futuro será necessariamente melhor. Sua responsabilidade é preservar as possibilidades de futuro e equilibrar a busca pelo conhecimento com os limites éticos de sua aplicação. A modernidade deixa de ser apenas uma promessa de progresso e passa a ser compreendida como uma tarefa de responsabilidade e autocrítica.

Texto produzido pela Redação Casa com Ideia com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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