A Carta de Veneza continua como documento-base do International Council on Monuments and Sites (Icomos), mas sua permanência não significa que deva ser aplicada como um conjunto de respostas prontas. Essa foi uma das questões discutidas por Beatriz Mugayar Kühl no segundo encontro do grupo de pesquisa Veredas, realizado em 19 de agosto de 2026 no Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP.
Coordenado pela professora Aline Coelho Sanches, o encontro teve participação on-line de Beatriz, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP. A conversa partiu do artigo Notas sobre a Carta de Veneza e da apresentação Carta de Veneza: como e por que ler.
Um documento situado no tempo
Produzida durante o 2º Congresso Internacional de Arquitetos e de Técnicos de Monumentos Históricos, realizado em Veneza entre 25 e 31 de maio de 1964, a Carta reúne 16 artigos. O texto foi a primeira das 13 resoluções aprovadas no congresso, mas não representa toda a produção preservacionista daquele período.
Para Beatriz, compreender o documento exige recuperar as circunstâncias de sua elaboração, os problemas enfrentados pelos profissionais e os debates que ficaram registrados nas atas. A Carta surgiu em um contexto no qual especialistas envolvidos na conservação de bens em diferentes países podiam tomar decisões baseadas em convicções individuais. A criação de princípios comuns buscava vincular as intervenções ao pensamento crítico, à história e às ciências.
O documento também foi marcado por um debate predominantemente europeu, especialmente italiano. Ainda assim, o congresso ocorreu durante a Guerra Fria e reuniu participantes de diferentes nacionalidades e de todos os continentes, inclusive do Brasil. A própria Carta estabeleceu que seus princípios deveriam ser aplicados por cada nação considerando sua cultura e suas tradições.
Limites e documentos posteriores
A Carta trata diretamente dos monumentos históricos e dedica pouco espaço à escala urbana. Por isso, documentos posteriores do Icomos, como a Carta de Washington, de 1987, e os Princípios de La Valletta, de 2011, aprofundaram temas que haviam aparecido de forma limitada no texto de 1964.
A leitura proposta por Beatriz não defende a substituição da Carta. O caminho seria relacioná-la aos debates que a antecederam e aos documentos que depois ampliaram suas questões. A idade do texto não o torna automaticamente ultrapassado, assim como sua permanência não basta para torná-lo atual.
No Brasil, Beatriz avaliou que ainda existe dificuldade para uma leitura fundamentada do documento. Segundo ela, referências teóricas e cartas patrimoniais são usadas sem o retorno necessário às fontes, enquanto se cobra da Carta uma resposta para questões que não faziam parte de seu escopo. “Estamos fazendo a Carta pagar por algo que ela não se propôs a resolver”, afirmou.
O uso no projeto e na preservação
A discussão também chegou ao ensino de projeto na FAU. Beatriz observou que a aproximação dos estudantes com as cartas patrimoniais ainda é pequena. A pouca interlocução entre departamentos e a realização de exercícios em terrenos vazios dificultam a presença efetiva da preservação nas disciplinas de projeto.
Quando entram em contato com a Carta sem tempo para amadurecer a leitura, os estudantes podem tratá-la de modo normativo, como se o documento apresentasse soluções projetuais. Uma experiência diferente ocorre na disciplina optativa interdepartamental Subsídios Investigativos e Projetuais para a Preservação do Patrimônio Edificado, que reúne docentes dos três departamentos da FAU.
No caso das ruínas, a menor quantidade de matéria remanescente pode permitir uma liberdade projetual um pouco maior, mas não autoriza qualquer solução. A ruína continua relacionada ao que existiu e exige fundamentação para a intervenção.
A mesma lógica vale para a escolha de novos usos. Um bem protegido pode receber um mercado, uma farmácia ou um Poupatempo, desde que o programa e o projeto considerem sua configuração espacial e seus valores. Até um museu pode ser inadequado, dependendo da relação estabelecida com a preexistência.
Beatriz também questionou o uso do termo reúso adaptativo como se fosse uma novidade suficiente para orientar as decisões. As dimensões econômicas e de desempenho fazem parte do processo, mas devem ser pensadas a partir da cultura, sem que o mercado deixe o valor cultural do bem em segundo plano.
A permanência da Carta de Veneza, portanto, estaria menos na repetição literal de suas respostas e mais na exigência de justificar cada intervenção. O documento não decide pelo profissional: exige que sejam explicitados os valores reconhecidos, os estratos que se pretende transmitir, a necessidade da obra e as perdas que podem ser produzidas.
Para Beatriz, questionar a Carta é parte de sua própria leitura crítica. Isso envolve perguntar quem define o monumento histórico, em nome de quem e quais valores ficam fora do reconhecimento. O documento não encerra o debate; mantém a responsabilidade sobre as respostas dadas ao patrimônio.







