CORUMBÁ — Um painel de cerâmica criado em 1965 para uma agência do extinto Banco Financial corre risco de perder partes de sua composição após décadas sem conservação adequada. A obra fica em um prédio comercial da Rua Delamare e representa aspectos da história econômica e cultural de Corumbá, como pecuária, mineração, ferrovia, navegação, indústria, comércio, o Pantanal e o Rio Paraguai.
A deterioração ficou novamente visível durante a reforma do imóvel, quando móveis e eletrodomésticos foram retirados do local. Por anos, o painel permaneceu escondido atrás dos produtos da loja que funcionava no endereço. Nesse período, peças se soltaram e a área que mostrava peões, uma boiada e a paisagem pantaneira recebeu massa corrida. A intervenção cobriu elementos originais e alterou o conjunto artístico.
O empresário Alfredo Zanlutti Junior, ex-acionista do Banco Financial e atual presidente da Faems (Federação das Associações Empresariais de Mato Grosso do Sul), pediu providências ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e à Prefeitura de Corumbá. “Um absurdo!”, reagiu.
Como o painel foi feito
De acordo com Zanlutti, o banco encomendou a obra, que foi instalada por uma empresa de São Paulo. As peças foram colocadas individualmente para formar a representação de elementos associados à identidade corumbaense. O empresário também afirmou que existiam peças de reposição e questionou onde elas estão.
O prédio mudou de proprietário depois da dissolução do conglomerado financeiro e passou a ter outra atividade comercial. A arquiteta Lauzie Xavier, diretora-presidente da Fuphan (Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico) de Corumbá, disse que os primeiros sinais de deterioração apareceram por volta de 2015, quando algumas peças começaram a se desprender.
Naquele período, o painel passou por uma restauração acompanhada pelo Iphan. Depois da venda do imóvel, porém, a obra voltou a ficar sem a atenção necessária. Com novos descolamentos, parte da superfície foi coberta com massa corrida em vez de receber uma recuperação especializada.
O arquiteto e urbanista corumbaense João Bosco Delvízio, autor do livro “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura moderna e memória de Corumbá”, lamentou a situação. O escritor, historiador e ativista cultural Benedito C. G. Lima também criticou o abandono: “Aqui em Corumbá destroem tudo que é arte”.
A preservação depende de uma avaliação técnica que identifique a extensão dos danos, analise a possibilidade de recuperar as peças e esclareça as responsabilidades pelo painel. Também é preciso verificar se a obra tem algum tipo de proteção formal e quais medidas podem evitar novas perdas.








