Fernanda Maciel, artista DEF da Kinesis Cia de Dança, afirma que o cripface reforça a ideia de que pessoas com deficiência não seriam capazes de atuar em diferentes espaços do cinema, da televisão e do teatro. A prática consiste em escalar artistas sem deficiência para interpretar personagens com deficiência em filmes, séries, peças e propagandas.
A discussão faz parte do festival Acessa BH, do qual Fernanda participa com o espetáculo Entre Ellas. A montagem propõe uma reflexão sobre o que pode um corpo e sobre os critérios usados para definir alguém como “normal” ou “deficiente”.
Para Fernanda, o cripface é uma manifestação do capacitismo porque reduz as oportunidades de profissionais com deficiência e transforma a deficiência em uma espécie de acessório da personagem. Ela questiona por que atrizes e atores com deficiência não são chamados para interpretar esses papéis e compara a situação à escolha de uma pessoa branca para viver um personagem negro.
Paulo Fabião, jornalista, escritor, ativista e palestrante, classifica o cripface como “mais uma prática capacitista normalizada”. Laís Vitral, curadora e idealizadora do Acessa BH, afirma que o debate envolve representatividade e acesso a oportunidades.
Representatividade além dos estereótipos
Fernanda também pondera que artistas com deficiência não devem ser chamados apenas para personagens cuja história esteja diretamente ligada à deficiência. Para ela, limitar esses profissionais a esse tipo de papel reduz suas possibilidades de atuação, já que pessoas com deficiência vivem situações diversas, estudam, trabalham, se relacionam e constroem diferentes trajetórias.
Na avaliação da artista, produções culturais ainda deixam de mostrar pessoas com deficiência tanto como profissionais quanto como parte das histórias narradas. A escolha do elenco, portanto, deveria ser pensada desde a dramaturgia e o roteiro até a construção dos personagens.
Ela defende que a presença de artistas com deficiência seja ampliada em diferentes papéis, sem que a condição do personagem precise ser o centro da narrativa. “Nós não estamos lá não apenas como profissionais atuando”, afirma Fernanda, ao falar sobre a ausência dessa população nas produções culturais.
Novas possibilidades para a arte
A artista rejeita a ideia de que características físicas ligadas à deficiência impeçam, por si só, a realização de determinadas performances. Segundo ela, essa conclusão só faria sentido se existisse uma única maneira de cantar, dançar ou atuar, baseada em um corpo considerado normal.
Fernanda afirma que artistas DEF produzem música, literatura, teatro, dança e cinema, mas podem fazer isso sem reproduzir os padrões corporais convencionais. Para ela, cabe a quem concebe e dirige uma obra ampliar suas escolhas estéticas e considerar a arte DEF como uma possibilidade na dramaturgia.
A discussão também se relaciona ao conceito de capacidade corporal compulsória, que descreve a pressão para que as pessoas demonstrem normalidade e plena capacidade física. Questionar esse padrão, diz Fernanda, permite apresentar personagens com deficiência sem exigir justificativas para sua existência, como um homem que usa cadeira de rodas em uma história sem que a trama precise se concentrar nessa condição.







