A participação de artistas com deficiência em produções culturais foi defendida por profissionais do setor durante o debate sobre o cripface — prática de escalar pessoas sem deficiência para interpretar personagens com deficiência em filmes, séries, peças ou propagandas.
Para Jéssica Teixeira, atriz, diretora, dramaturga e produtora, o problema não se limita à escolha do elenco. Ela afirma que essas representações costumam associar a deficiência a sofrimento, vitimização e características pejorativas. A artista participa do festival Acessa BH com o espetáculo Taquesutaque, sobre uma mulher atravessada pelas memórias da decisão solitária de mudar de estado e iniciar a carreira de atriz.
Representação e oportunidades
Jéssica compara o cripface a outras práticas de representação feitas por pessoas que não pertencem ao grupo retratado. Na avaliação dela, a contratação de profissionais sem deficiência reduz as oportunidades de quem tem deficiência e ainda mantém narrativas estereotipadas.
Ela também questiona a forma como personagens com deficiência são descritos em roteiros. Enquanto um pai de família pode ser interpretado por diferentes artistas sem que sua identidade seja necessariamente destacada, personagens com deficiência costumam ter essa característica apresentada como elemento central. Para Jéssica, artistas precisam recuperar o direito de imaginar e interpretar papéis diversos, sem ficar restritos à reprodução de dados sobre a realidade.
Daniel Silva, bailarino e cofundador da Movidos Dança, no Rio Grande do Norte, classificou o cripface como uma atitude atrasada e afirmou que a prática desconsidera artistas com deficiência que poderiam ocupar esses espaços. Fernanda Maciel, artista DEF da Kinesis Cia de Dança, disse que o recurso reforça a ideia de que pessoas com deficiência não são capazes de atuar.
Paulo Fabião, jornalista, escritor, ativista e palestrante, definiu o cripface como uma prática capacitista normalizada. Laís Vitral, curadora e idealizadora do Acessa BH, afirmou que a discussão envolve representatividade e acesso a oportunidades.
Currículo e liberdade de criação
Jéssica conta que estuda teatro e pratica dança desde criança. Segundo ela, sua formação e sua experiência demonstram que artistas com deficiência podem interpretar diferentes personagens. A atriz é graduada em Teatro (Licenciatura) e mestra em Artes pelo PPG Artes da Universidade Federal do Ceará.
Para ela, a escolha do elenco deve considerar histórico, currículo, pesquisa e estudo. A artista critica situações em que esses elementos são deixados de lado, inclusive quando pessoas com pouca experiência passam a atuar.
Jéssica também rejeita o argumento de que características físicas relacionadas à deficiência impediriam determinadas performances. Na visão dela, as exigências precisam estar ligadas à obra, e não servir para excluir uma pessoa com deficiência. “Somos atores e atrizes como qualquer outro”, afirmou.
A artista defende que pessoas com e sem deficiência possam interpretar personagens diversos, desde que tenham as condições necessárias para realizar o trabalho. Para ela, limitar profissionais com deficiência a papéis que mencionem explicitamente sua condição mantém uma barreira no mercado cultural.







