O tráfico de papagaios-verdadeiros tem atingido ninhos no Cerrado e na Mata Atlântica de Mato Grosso do Sul, retirando filhotes e danificando abrigos usados em diferentes estações reprodutivas. Entre 2016 e 2024, 1.292 das 1.724 cavidades monitoradas pelo Projeto Papagaio-verdadeiro foram arrombadas. A estimativa é de que 1.089 filhotes, com idade aproximada de 5 a 50 dias, tenham sido roubados.
Os dados foram apresentados por Gláucia Seixas, idealizadora e coordenadora da iniciativa ligada à Fundação Neotrópica do Brasil, durante um evento de ConservAÇÃO MS, em Campo Grande. O levantamento considera apenas oito municípios do Cerrado e da Mata Atlântica de Mato Grosso do Sul e não inclui os ninhos monitorados no Pantanal.
A retirada de aves costuma ocorrer principalmente em setembro e outubro, quando os filhotes ainda estão frágeis e sem penas. Algumas cavidades foram invadidas entre 1 e 5 vezes. Além de levar os animais, os saqueadores comprometem a estrutura dos ninhos, que normalmente ficam em palmeiras e têm duração média de seis a sete anos.
Monitoramento e proteção dos ninhos
No início de cada estação reprodutiva, a equipe verifica cerca de 300 a 400 cavidades naturais cadastradas e busca novos abrigos. O acompanhamento se concentra depois nos locais ativos, com adultos, ovos ou filhotes. A cada período, são monitoradas aproximadamente 150 a 250 cavidades, conforme as condições encontradas pelas aves.
O projeto atua em Batayporã, Glória de Dourados, Ivinhema, Itaquiraí, Jateí, Naviraí, Novo Horizonte do Sul e Taquarussu. A reprodução também depende da oferta de alimento, das chuvas e da existência de árvores com cavidades. A transformação dos ambientes naturais para agricultura industrial, a limpeza de pastagens e os incêndios florestais reduzem a disponibilidade desses abrigos.
Desde 2019, cerca de 450 ninhos artificiais foram confeccionados, instalados e monitorados. Neles, o sucesso reprodutivo registrado no Cerrado e na Mata Atlântica foi de 44%, acima dos 21% observados nos ninhos naturais dessas regiões. No Pantanal, o índice em ninhos naturais é de 53%.
Cerca de 40% dos ninhos artificiais disponíveis são ocupados por papagaios-verdadeiros. Outros 40% recebem aproximadamente 20 espécies de aves. Durante o acompanhamento, os filhotes são identificados com anilhas numeradas. Na atual estação reprodutiva, aproximadamente 20 já haviam sido anilhados, em sua maioria nascidos em estruturas artificiais.
“Este número varia bastante, de ano para ano”, explica Gláucia, ao falar sobre a quantidade de cavidades monitoradas em cada estação.
A dimensão das apreensões
O Projeto Papagaio-verdadeiro começou em 1997, a partir da experiência de Gláucia no CRAS em Campo Grande, que recebia filhotes vítimas do comércio ilegal. A iniciativa é executada pela Fundação Neotrópica do Brasil, instituição que Gláucia também ajudou a fundar em 1993.
Um artigo científico publicado em setembro de 2026 na revista Ambiente & Sociedade analisou 271 relatórios de apreensão da Polícia Militar, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e da Polícia Rodoviária Federal. Os documentos correspondem ao período de 2017 a 2021 em Mato Grosso do Sul.
O papagaio-verdadeiro apareceu em 27% dos registros e foi a espécie mais frequente e com maior quantidade de indivíduos apreendidos. Entre as 20 ocorrências com mais animais, 13 reuniram 892 papagaios-verdadeiros. O levantamento também apontou concentração das apreensões no segundo semestre.
Entre 1988 e 2025, cerca de 12.500 filhotes foram apreendidos no estado. Esses registros representam apenas os animais localizados pela fiscalização e não permitem calcular quantos foram retirados da natureza sem serem encontrados.
O projeto orienta que pessoas não retirem nem comprem papagaios nascidos livres e denunciem o saque de ninhos e a venda ilegal. Doações podem ser feitas pelo Pix (67) 99252-8866. Informações sobre a Campanha Adote um Ninho e seja Amigo(a) dos Louros estão nos perfis @projetopapagaioverdadeiro e @fundacaoneotropicabrasil e pelo telefone (67) 99252-8866.








