CAMPO GRANDE — O povo Terena continua construindo sua história por meio da preservação da cultura, da espiritualidade e da defesa dos territórios ancestrais. A reflexão é de Kleber Gomes, indígena terena e professor, que relaciona a trajetória de seu povo às memórias da Guerra contra o Paraguai e às lutas atuais pela demarcação das terras.
Gomes escreve a partir de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, e conecta sua experiência às lembranças dos antepassados que viveram nos territórios terena. Para ele, a distância entre gerações não interrompe a inspiração nem o compromisso com a continuidade da história indígena.
Memória da guerra e perda dos territórios
As memórias terena estão ligadas, em grande parte, ao período posterior à Guerra contra o Paraguai. O conflito e seu desfecho provocaram a retirada da maior parte das terras ancestrais do povo, segundo a avaliação apresentada por Gomes. A perda marcou uma nova etapa e deu início a um período de resistência para garantir a continuidade da existência terena em ambientes considerados hostis.
O autor afirma carregar a dor da perda territorial por pertencer à quinta geração terena nascida após o fim da guerra. Ele também lembra que os Terena participaram do conflito como combatentes, defendendo seus territórios e a nação daquele período. Ao final, porém, o povo teria enfrentado a expulsão de seu próprio chão.
A trajetória posterior, na avaliação de Gomes, mostra que ferimentos, perdas e o contato destrutivo e violento com o colonizador europeu não encerraram a história terena. A permanência do povo é associada à garra e à perseverança diante das batalhas que enfrentou.
Demarcação e união entre povos
Quase 40 anos após a promulgação da atual Constituição Brasileira, os Terena continuam reivindicando a concretização do direito aos territórios ancestrais. A não demarcação total é apontada como uma das situações de desrespeito enfrentadas pelo povo.
A luta terena é apresentada também como parte da mobilização dos demais 400 povos originários do país. Entre as reivindicações estão a devolução dos territórios e o enfrentamento à discriminação, ao racismo e à depreciação. Gomes afirma que os povos indígenas seguem somando forças de forma coletiva.
Espiritualidade e transmissão de saberes
A fé em Ituko'Óviti ocupa um lugar central na espiritualidade ancestral terena. Segundo Gomes, essa divindade já fazia parte da relação espiritual do povo antes da chegada dos colonizadores e de suas crenças, regras e formas de fé.
Essa espiritualidade envolve o olhar para o coletivo, o cuidado com as pessoas próximas e a conexão com a natureza, entendida como parte inseparável da vida. Também se relaciona ao Bem Viver, descrito como uma filosofia milenar de existência compartilhada pelos povos originários da América e do Brasil.
Danças, idioma, relação com a natureza e identidade seguem acompanhando os Terena nos territórios tradicionais, nas áreas atuais de retomada e nos contextos urbanos espalhados pelo Brasil. A continuidade também depende da transmissão dos conhecimentos dos anciãos às novas gerações.
Quando um ancião morre, levam-se saberes, memórias e experiências de quem viveu a cultura terena. Para Gomes, essa perda é amenizada quando o legado é repassado aos mais jovens. Por isso, ele destaca a educação indígena, a valorização dos anciãos em vida e a escuta dos mais experientes.
A expectativa apresentada é que a história terena seja conhecida em mais regiões do Brasil. A continuidade desse conhecimento, afirma Gomes, depende do próprio povo e de sua presença em diferentes ambientes, entre pessoas e lugares diversos.







