Aos 25 anos, Gabriela Moraes encontrou na pintura uma forma de transformar em imagens as cores, os símbolos e as sensações de sua vivência em uma religião de matriz africana. Artista da dança, das artes visuais e da cena, ela trabalha principalmente com tinta acrílica e cria obras atravessadas por ancestralidade, cuidado e proteção.
A aproximação entre sua espiritualidade e as telas aconteceu aos poucos. Gabriela já produzia quadros havia cerca de 7 anos, inicialmente com referências à música, a frases e a experiências pessoais. Entre os trabalhos anteriores, estavam pinturas inspiradas nos Racionais, em estilos musicais, em frases motivacionais e em criações próprias.
“Conforme fui me aproximando, veio surgindo essa vontade de transpor na tela tudo aquilo que eu senti lá dentro”, afirma a artista.
Camadas, cores e significados
O processo de criação começa com uma base mais crua. Depois, Gabriela acrescenta detalhes, sombras e iluminação, até concluir a obra com verniz. Ela também já experimentou tinta spray, mas se identifica mais com uma técnica livre e com a presença física da tela, que ocupa espaço e estabelece uma relação direta com quem observa.
Água, folhas, corpos e gestos aparecem com frequência nas composições. As cores também podem representar energias, emoções e entidades específicas, mesmo quando não há uma representação direta. Para Gabriela, cada elemento pode carregar sentidos relacionados à sua experiência espiritual.
A artista não quer que as obras sejam destinadas apenas a quem já conhece essa religião. Seu objetivo é transformar experiências particulares em imagens capazes de despertar sensações em pessoas de diferentes vivências. Por isso, considera que não é preciso conhecer previamente os símbolos para criar uma relação com o quadro.
Nas pinturas pessoais, a separação entre a artista e a mulher que vivencia a espiritualidade praticamente desaparece. A divisão fica mais clara quando ela trabalha sob encomenda e precisa representar uma entidade ou um símbolo solicitado por outra pessoa.
Iemanjá e Rosa Caveira
Duas pinturas foram decisivas para esse percurso: uma representação de Iemanjá, criada durante um período de transformação pessoal e aproximação com a própria espiritualidade, e outra de Pomba-Gira Rosa Caveira, produzida como presente.
A obra de Rosa Caveira marcou o momento em que Gabriela percebeu com mais clareza o caminho que queria seguir. “Foi um ponto de virada na minha vida e no processo criativo”, diz.
Ao levar essas referências para a arte, a artista também busca questionar estereótipos e preconceitos relacionados às religiões de matriz africana. Ela vê as exposições e as perguntas do público como oportunidades de diálogo, especialmente com pessoas que nunca tiveram contato próximo com essas manifestações religiosas.
Para quem se aproxima desse universo pela primeira vez, Gabriela espera que a experiência comece pela sensação, antes da tentativa de decifrar cada símbolo. Para ela, despertar curiosidade, respeito ou conexão já é uma forma de cumprir o papel da obra. Entre as pessoas que compartilham do axé, espera que as telas sejam reconhecidas como expressões de amor, carinho e beleza.








