SÃO PAULO — O Ministério Público de São Paulo abriu uma notícia de fato para apurar possíveis irregularidades relacionadas às privatizações da Sabesp e da Emae e uma eventual conexão com o Banco Master, de Daniel Vorcaro. A Promotoria do Patrimônio Público e Social deu 45 dias para que a Sabesp, a Emae, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o governo Tarcísio apresentem informações.
A apuração preliminar foi determinada pela promotora Cíntia Marangoni, a partir de uma denúncia do deputado Antônio Donato (PT-SP), líder do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O procedimento vai verificar se existem elementos que indiquem improbidade administrativa, prejuízo ao patrimônio público, conflito de interesses, favorecimento de particulares ou problemas na competição dos processos.
A análise envolve a privatização da Emae, a desestatização da Sabesp e a posterior aquisição do controle da Emae pela Sabesp, operações conduzidas entre abril e julho de 2024 durante o governo de Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos). Depois do recebimento das respostas, ou do fim do prazo, a promotora decidirá se há motivo para abrir um inquérito civil.
Denúncia cita operações financeiras
Na representação, Donato afirma que o Banco Master teria participado da estruturação e do financiamento de grupos interessados nas privatizações. O deputado também menciona Nelson Tanure, Carlos Piani, a AMBIPAR, a REAG e a Trustee DTVM.
A Emae foi leiloada na Bovespa em 19 de abril de 2024. O Fundo Phoenix venceu a disputa pelas ações estaduais por aproximadamente R$ 1,04 bilhão, superando a proposta da EDF. Segundo a denúncia, o fundo havia sido constituído em 20/03/2024 e tinha ações da AMBIPAR como principal lastro.
Donato também cita um parecer técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo o qual o Banco Master viabilizou o pagamento da aquisição de controle da Emae por meio de uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A., com participação de Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior.
A representação menciona ainda Karla Maciel Dolabella, que presidiu a Emae após a privatização e anteriormente comandava a área de fusões e aquisições do Banco Master. Ela renunciou em dezembro de 2025 aos cargos de CEO e diretora de Pessoas e Sustentabilidade da empresa, alegando razões pessoais.
Sabesp também é citada
Donato questiona a venda do controle da Sabesp e afirma que Carlos Piani, ex-presidente do Conselho de Administração da Ambipar, assumiu a presidência da companhia em outubro de 2024. A denúncia relaciona a atuação de Piani na Ambipar e na Equatorial, empresa que passou a controlar a Sabesp.
O deputado também aponta uma operação posterior envolvendo a Emae, a XP Investimentos e a Sabesp. Na versão apresentada por ele, após a execução de uma dívida de Nelson Tanure pela XP, a Sabesp teria comprado a Emae da instituição.
A denúncia ainda menciona uma doação de R$ 2 milhões feita por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, para a campanha de Tarcísio ao governo do Estado. O documento pede investigação por possíveis crimes contra o mercado de capitais, contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro, organização criminosa e atos de improbidade administrativa.
O que diz a Sabesp
A Sabesp informou que o procedimento é preliminar e decorre de uma representação parlamentar. A companhia declarou que vai prestar os esclarecimentos solicitados pelo Ministério Público.
A empresa afirmou que a desestatização foi documentada, autorizada pelo Legislativo estadual e submetida a consultas, audiências públicas e às instâncias regulatórias. Também disse que as operações societárias posteriores, incluindo a aquisição da Emae, foram aprovadas pelos órgãos competentes.
A companhia negou fundamento para associá-la ou associar seus administradores aos fatos investigados envolvendo o Banco Master e afirmou que fornecerá às autoridades as informações necessárias para o esclarecimento do caso.







