CAMPO GRANDE — Rafael Araújo Diniz, de 23 anos, voltou de surpresa para Campo Grande nesta sexta-feira (18), após passar 11 meses na Ucrânia. Durante o período, atuou na Defesa Territorial e na logística, em missões próximas à linha de combate. A mãe, a técnica de enfermagem Elidiane Chaves de Araújo, só descobriu que ele estava retornando quando o filho apareceu no trabalho.
“Foi muita emoção. Quase desmaiei, passei mal. Agora é só alegria”, disse Elidiane após o reencontro. Rafael estava havia dois anos longe da família e manteve em segredo tanto a ida para a guerra quanto a volta ao Brasil. Apenas um tio sabia do retorno, e a avó foi avisada antes para que a surpresa não afetasse sua saúde.
Como a família descobriu a viagem
Antes de viajar para a Europa, Rafael passou um ano em Santa Catarina. A família acreditava que ele seguiria para a Espanha, mas a irmã percebeu pelas redes sociais que o trajeto era diferente. Depois, o jovem telefonou e contou que estava a caminho da Ucrânia. Na madrugada seguinte, informou que já havia chegado ao país e pediu que respeitassem sua decisão.
“Ele não avisou que ia para a guerra. Eu entrei em desespero e pedi que voltasse”, relatou Elidiane.
A mãe afirmou que passou meses com dificuldades para comer e dormir e recorreu a medicamentos quando ficava sem notícias. A irmã também adoeceu emocionalmente, enquanto o pai e a avó enfrentavam a espera. Elidiane contou que ia trabalhar chorando e ainda precisava ajudar a filha.
Rotina em combate
Rafael disse que comprou a própria passagem e contou com a ajuda de amigos que já estavam na Ucrânia e serviam em uma brigada. Antes da missão, fez 15 dias de treinamento. Ao todo, permaneceu 11 meses no país, sendo sete meses e 20 dias em missão, sem folga.
Ele relata ter passado seis meses na Defesa Territorial, em trincheiras e posições próximas à linha de combate. Depois, atuou por um mês e 20 dias na logística. Entre as tarefas estavam transportar suprimentos a pé, conduzir militares que substituiriam os que estavam nas posições, retirar feridos e resgatar corpos.
A presença de drones fazia o grupo buscar abrigo repetidamente durante os deslocamentos. Segundo Rafael, equipamentos de reconhecimento localizavam posições que poderiam ser atacadas por drones FPV, do tipo kamikaze, ou por artilharia. As minas terrestres, principalmente as enterradas, também eram uma fonte de medo.
O jovem afirma ter enfrentado fome, sede e privação de sono. Em uma das situações relatadas, ficou nove dias sem água e comida ao lado de um companheiro. Eles dependiam de suprimentos transportados por um drone chamado “Babayaga”, mas as entregas podiam não chegar quando o equipamento era abatido.
Rafael também contou que perdeu amigos em combate e presenciou companheiros chegarem ao limite psicológico. Quando sentia medo de morrer, repetia um trecho de Isaías 41:10: “Não tema, pois estou com você”.
Mudança de perspectiva
Rafael afirma que não se arrepende de ter viajado, mas diz que a experiência mudou sua visão sobre a guerra. Ao deixar o Brasil, buscava experiência e oportunidades para o futuro. A convivência com cidades destruídas e famílias que precisaram abandonar suas casas alterou sua perspectiva.
Ele também declarou que recebeu remuneração durante o período na Ucrânia. O jovem avalia que o conflito não pertence aos brasileiros e que estrangeiros nem sempre são reconhecidos de forma proporcional aos riscos assumidos.
Apesar de ainda se interessar pela evolução de drones e armamentos, Rafael considera que a tecnologia tornou a guerra mais perigosa. Para ele, o conflito está longe de terminar. Depois de abraçar a mãe no trabalho, ele aguardou a chegada do pai, que também seria surpreendido.







