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Contrabando na fronteira passa a operar com cargas maiores e novos produtos

Receita Federal relata apreensões de perfumes e medicamentos em Mato Grosso do Sul e aponta expansão de grupos criminosos no mercado ilegal.

Contrabando na fronteira passa a operar com cargas maiores e novos produtos
Foto: Arquivo

A Receita Federal identificou uma mudança na forma de atuação do contrabando na fronteira: operações que antes envolviam pequenas cargas passaram a contar com caminhões, logística organizada e vários tipos de mercadoria. O cenário foi apresentado pelo superintendente regional adjunto da Receita Federal na 1ª Região Fiscal, Erivelto Moysés Torrico Alencar, durante um seminário em Brasília sobre o mercado ilegal no Brasil.

Em Mato Grosso do Sul, Alencar relatou duas apreensões. Em outubro de 2025, uma carga de perfumes avaliada em R$ 20 milhões foi encontrada em um depósito no Bairro Coronel Antonino, em Campo Grande. Também houve a apreensão de R$ 1,5 milhão em medicamentos emagrecedores transportados por uma única pessoa.

Estrutura maior e variedade de mercadorias

O Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf) estima que o contrabando entre Brasil e Paraguai movimente cerca de R$ 60 bilhões por ano. Conforme dados atribuídos ao Ministério Público Federal, entre 5% e 10% das mercadorias de contrabando e descaminho que entram no Brasil pela fronteira com o Paraguai são apreendidas.

A Receita Federal enfrenta uma dificuldade parecida no país inteiro. O valor das apreensões feitas pelo órgão subiu de R$ 3 bilhões em 2022 para R$ 4,2 bilhões em 2025. Segundo Alencar, estudos indicam que esse montante equivale a entre 0,5% e 1% do que entra irregularmente no território nacional.

Luciano Barros, presidente do Idesf, afirmou que organizações criminosas passaram a aproveitar no contrabando estruturas e conhecimentos desenvolvidos no tráfico de drogas. Na prática, caminhões podem transportar, dentro da mesma operação, cigarros, medicamentos, agrotóxicos e drogas.

Um estudo do instituto calcula custo médio de distribuição de 22% para os grupos envolvidos no comércio ilegal. As margens estimadas chegam a 507% para cigarros clandestinos, 390% para telefones celulares e brinquedos, 312% para óculos e 285% para baterias.

PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) foram citados por especialistas como organizações que ampliaram a atuação para produtos além das drogas. O movimento teria começado com cigarros e avançado para combustíveis, bebidas, medicamentos e, mais recentemente, canetas usadas para emagrecimento.

Aumento nas apreensões de medicamentos

A Receita Federal registrou crescimento nas apreensões de remédios emagrecedores: de R$ 4 milhões entre janeiro e junho de 2025 para mais de R$ 80 milhões no mesmo período deste ano.

Em três meses de 2026, a Polícia Federal apreendeu 4.544 unidades de medicamentos ilegais para emagrecimento em Mato Grosso do Sul. O número supera as 3.400 unidades recolhidas durante todo o ano de 2025 e as cinco apreensões registradas em 2024.

Nos últimos cinco anos, as apreensões de medicamentos ultrapassaram R$ 100 milhões, segundo dados reunidos pelo Idesf. Entre as chamadas canetas emagrecedoras, a Receita Federal apreendeu 2.544 unidades em 2024 e 30.011 em 2025, aumento de aproximadamente 1.080%. Para os seis primeiros meses de 2026, a projeção acompanhada pelo instituto era de 150 mil unidades.

A Receita alerta que medicamentos introduzidos clandestinamente podem não passar por verificações de procedência, armazenamento e controle exigidas no mercado regular. O risco também aparece em outros produtos, como perfumes e defensivos agrícolas.

Agrotóxicos e dispositivos eletrônicos

Entre os produtos mencionados está o paraquat, herbicida banido no Brasil por causa dos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Em 2022, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu, na BR-163, em Dourados, uma carga de 17 mil quilos de agrotóxicos contrabandeados do Paraguai, avaliada em pelo menos R$ 17 milhões.

Em 2023, o paraquat foi localizado em uma propriedade rural de Terenos, a 25 km de Campo Grande, durante uma investigação do Ministério Público sobre o uso irregular de inseticidas em lavouras próximas ao Córrego Piraputanga. A área é utilizada pela comunidade quilombola ARQTEC (Associação de Remanescentes de Quilombolas Tertuliano e Canuta).

Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP (Universidade de São Paulo), afirmou que resíduos de substâncias não autorizadas podem afetar a produção agrícola e contribuir para barreiras comerciais e fechamento de mercados externos para produtos brasileiros.

Os dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como vapes, também aparecem nas rotas clandestinas entre Paraguai e Brasil.

Perdas do mercado ilegal

O Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) calcula que as perdas provocadas pelo mercado ilegal no Brasil passaram de R$ 100 bilhões em 2014 para R$ 473 bilhões em 2025.

Edson Vismona, presidente da entidade, avalia que a rentabilidade do comércio clandestino pode gerar recursos para outras atividades criminosas. Sérgio Luis Stinglin, delegado-executivo da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, explicou que a perda de uma carga contrabandeada tende a representar custo menor para as organizações do que a perda de drogas. As penas também podem ser menores quando não há elementos que comprovem a existência de uma organização criminosa.

Para Leandro Piquet, o combate exige integração entre as áreas policial, tributária e financeira, com atenção a empresas, movimentações de dinheiro e estruturas usadas para dar aparência legal às operações.

Texto produzido pela Redação Casa com Ideia com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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