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Recife mantém o fuso de Brasília apesar da diferença com o Sol

A hora oficial adotada em Pernambuco segue uma decisão administrativa de 1913, criada para integrar o país e organizar deslocamentos e comunicações.

Recife mantém o fuso de Brasília apesar da diferença com o Sol

A diferença entre a posição do Sol e o horário dos relógios no Recife tem origem em uma decisão nacional tomada no início do século XX. Ao meio-dia marcado no relógio, o Sol corresponde a aproximadamente 12h40 na hora solar local. A capital pernambucana está a leste do meridiano usado para definir o fuso UTC-3, mas mantém o mesmo horário de Brasília.

O resultado aparece no cotidiano: em determinadas épocas do ano, o Sol pode nascer antes ou pouco depois das 5h e se pôr antes das 18h, mesmo quando os dias costumam ser mais longos. A diferença não é considerada um erro de funcionamento dos relógios, mas uma convenção administrativa.

A criação da hora oficial

Antes da adoção dos fusos horários, cada cidade podia ajustar seus relógios conforme a chamada hora solar aparente, baseada na posição do Sol. Localidades próximas podiam ter horários diferentes, o que criava dificuldades para viagens em estradas de ferro, linhas de navegação e meios de comunicação.

Um decreto assinado em 1913 pelo então presidente da República, Hermes da Fonseca, estabeleceu a chamada hora legal. O texto entrou em vigor em 1º de janeiro de 1914 e determinou que os relógios das capitais estaduais fossem ajustados de acordo com uma tabela de correção definida pelo governo federal.

A mudança acompanhou a necessidade de organizar deslocamentos que ficaram mais rápidos com a expansão das ferrovias. “Com o advento da locomotiva, o deslocamento ficou muito mais rápido”, explica Ricardo Carvalho, chefe da Divisão de Serviços da Hora Legal Brasileira do Observatório Nacional (ON).

O órgão também enviava sinais para estações telegráficas instaladas nos Correios, onde a população podia consultar a hora e acertar os relógios. O Observatório Nacional continua responsável por conservar e disseminar a Hora Legal Brasileira.

Por que Pernambuco ficou no UTC-3

O Recife está na longitude 35º oeste. A cidade fica dentro da área relacionada ao meridiano -2, de 30º, enquanto o meridiano -3 está a 45º. Pela posição geográfica, o Sol nasce cerca de 40 minutos antes do horário indicado pelos relógios.

A cidade está a 2 horas, 19 minutos e 25 segundos do Meridiano de Greenwich. Ainda assim, seus relógios foram atrasados em 40 minutos e 35 segundos, em vez de serem adiantados em quase 20 minutos. Pernambuco passou a acompanhar o horário do Rio de Janeiro, que era a capital federal na época.

A decisão também considerou a extensão longitudinal do estado. Em artigo do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), a pesquisadora Sabina Alexandre Luz explica que Henrique Morize, então diretor do Observatório Nacional, preferiu manter Pernambuco inteiro no fuso de menos três horas de Greenwich. Dessa forma, o litoral pernambucano ficou dentro de um único fuso, sem a divisão do estado entre duas referências horárias.

Fernando de Noronha, arquipélago pertencente a Pernambuco e localizado mais a leste, usa o fuso com duas horas de diferença em relação a Greenwich. O restante de Pernambuco segue o UTC-3, assim como praticamente todos os estados da federação. Os fusos -4 e -5 ficaram para áreas mais a oeste, especialmente em estados como Mato Grosso, Amazonas e Acre.

Ajustes feitos em outras capitais

João Pessoa atrasou 40 minutos e 36 segundos, um segundo a mais que o Recife. Em Natal, o atraso foi de 38 minutos e 46 segundos; em Maceió, de 37 minutos e 2 segundos; e, em Aracaju, de 31 minutos e 46 segundos.

Nenhuma outra capital do país teve alteração acima de meia hora. Em Manaus, os relógios foram adiantados em quatro segundos.

A implantação também exigiu tempo e atualização de equipamentos. Segundo Ricardo Carvalho, o Observatório Nacional levou cerca de cinco anos para concluir a adoção da hora oficial nas localidades mais distantes do Rio de Janeiro. A disseminação plena das observações astronômicas por meio do sistema de fusos ocorreu a partir de 1918.

Propostas para mudar o horário

A diferença entre o relógio e o amanhecer já motivou abaixo-assinado virtual e propostas no Senado para transferir o litoral leste do Nordeste para o fuso UTC-2, alinhado ao de Fernando de Noronha. As iniciativas, porém, não avançaram: propostas legislativas reuniram 32 dos 20 mil apoios necessários, e o abaixo-assinado não alcançou assinaturas suficientes.

Uma eventual mudança exigiria estudos sobre geografia, economia, transporte, energia e educação. Para Fredson Pereira, professor do Departamento de Ciências Geográficas da Universidade Federal de Pernambuco (DCG/UFPE), Pernambuco ficaria uma hora à frente de Brasília, com custos de transição e adaptação.

Ricardo Carvalho também aponta possíveis efeitos nas relações comerciais, bancárias e na bolsa de valores, que seguem o fuso da capital. O especialista lembra que diferenças entre horários já causaram problemas em outras regiões, como a anulação de um concurso no Mato Grosso do Sul por causa da adoção de fusos diferentes entre cidades.

A hora usada no Recife, portanto, não acompanha exatamente o ciclo solar local, mas permanece ligada a uma escolha histórica de integração. Para Fredson Pereira, trata-se de uma convenção criada para manter Pernambuco e o litoral nordestino dentro de um mesmo fuso, e não de um erro nos relógios.

Texto produzido pela Redação Casa com Ideia com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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