A OnilX, empresa de criptomoedas que contou com a atuação pública de Paulo Guedes, foi alvo de uma ordem de suspensão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e enfrenta 108 ações judiciais movidas por investidores. Eles afirmam que não conseguem resgatar os valores aplicados, apesar da promessa de alta liquidez e de rendimentos de até 2,8% ao mês.
O ex-ministro da Economia dava palestras, prestava consultorias, recebia investidores e aparecia em materiais publicitários da empresa. Também participava de reuniões estratégicas com parceiros comerciais e de eventos ligados à OnilX. Guedes não integra o quadro societário da companhia e não quis se manifestar quando procurado.
Investidores relatam perdas
A empresa foi alvo de uma stop order da CVM em 12 de janeiro de 2026. No Ato Declaratório nº 24.680, a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários determinou a suspensão imediata da oferta pública de serviços de intermediação de valores mobiliários pelo grupo, sob pena de multa diária.
A autarquia concluiu que a OnilX não tinha autorização para intermediar valores mobiliários, atuar como assessora de investimentos ou captar recursos. A decisão considerou contratos com promessa de rentabilidade fixa diária ou mensal e operações de arbitragem em moedas estrangeiras no mercado de balcão, classificadas como Contratos de Investimento Coletivo sujeitos à regulação federal.
Entre 12 de junho e 10 de setembro, foram identificadas 108 ações contra o grupo. Os processos tramitam nas Justiças do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Alagoas e Pará. Alguns investidores suspeitam de um esquema de pirâmide financeira e dizem ter confiado milhões de reais à empresa para aplicações em criptoativos e stablecoins.
Um casal que entrou na Justiça para recuperar R$ 876.513,00 afirmou ter feito novos aportes depois de participar de uma reunião com Guedes na sede da OnilX, em abril. Cerca de quatro meses depois, em agosto, tentou sacar o investimento, mas não conseguiu.
Em outro processo, uma empresa cobra o resgate de R$ 632.183,33 investidos por meio da OnilX. Mensagens anexadas à ação mostram uma assessora usando a presença de Guedes para tentar convencer o cliente a aplicar valores maiores. Ela afirmou que o ex-ministro “tá dentro da empresa” e que seria possível marcar uma reunião com ele no escritório da companhia na Faria Lima, em São Paulo, para tratar de estratégia.
Recurso foi negado pela CVM
Após a ordem da autarquia, a advogada Anne Caroline Marciquevik passou a representar a OnilX em reuniões na CVM. Ela foi assessora especial de Guedes durante o governo de Jair Bolsonaro e atualmente intermedia contratos e palestras do ex-ministro.
Dados da Agenda Transparente, da ONG Fiquem Sabendo, registram seis reuniões de Anne Caroline com autoridades da CVM desde a stop order. Em 1º de abril, o Colegiado da comissão analisou o recurso da empresa e, por maioria de votos, negou o pedido de revogação da medida.
Na mesma decisão, o colegiado aceitou, por unanimidade, esclarecer que a proibição não alcança a intermediação simples de criptoativos como Bitcoin, Ethereum e USDT quando não há promessa de rendimento ou contrato de investimento.
Em uma nota publicada em seu site, a OnilX afirma que é regular e confiável, tem CNPJ ativo, sede no Brasil e cerca de cinco anos de atuação no mercado de ativos virtuais. A empresa diz oferecer compra, venda, troca, intermediação e custódia de criptomoedas.
A companhia sustenta que a decisão da CVM se limita a operações que possam ser consideradas oferta ou intermediação de valores mobiliários. Também afirma que não atua como gestora de investimentos, não promete rentabilidade fixa e não oferece contratos de investimento coletivo.
Paulo Guedes e Fábio Lino, dono da OnilX, foram procurados sobre a atuação do ex-ministro e as acusações feitas pelos investidores, mas não se manifestaram.







