Janete Marques passou cinco anos ajudando pessoas em situação de vulnerabilidade em uma clínica que acolhe dependentes químicos e pessoas em situação de rua. Hoje, 208 pessoas estão sob seus cuidados. Ainda assim, ela não conseguiu evitar a morte do filho Dhyogo, que enfrentou a dependência química desde a adolescência.
Dhyogo morreu aos 24 anos, depois de uma longa luta contra o uso de drogas e uma tuberculose. A dependência começou por volta dos 14 anos e acompanhou grande parte da vida dele, entre tratamentos, períodos de abstinência e recaídas.
Tratamentos e tentativas de recomeço
O primeiro tratamento ocorreu quando Dhyogo tinha 15 anos. Ele permaneceu um ano na clínica e voltou a usar drogas depois de sair. Mais tarde, passou por outra internação e conseguiu ficar quatro anos sem usar.
Nesse período, chegou a cursar três anos de Direito e, segundo Janete, era um dos melhores alunos. O jovem também teve planos profissionais: primeiro, sonhou em ser piloto de avião; depois, quis ser policial. A dependência, porém, interrompeu esses projetos.
O marido de Janete, Milton Marques, participou das tentativas de ajudar Dhyogo. Ele já trabalhava na clínica havia cerca de 20 anos quando os dois se casaram. Foi nesse local que Dhyogo conheceu Milton, ainda adolescente, durante o primeiro acolhimento.
Janete afirma que fez o que estava ao alcance para ajudar o filho. “Eu ajudo tanta gente e não consegui ajudar meu filho”, resume.
A vida além da dependência
Para a mãe, Dhyogo não deve ser lembrado apenas pelas drogas ou pela doença. Dos três filhos de Janete, ele era o do meio e ficou conhecido desde pequeno pelo jeito manhoso, chorão e brincalhão.
A mãe conta que ele fazia graça em quase todas as fotos. Também era visto por ela como seu bebê mesmo depois de adulto. Dhyogo era pai de dois meninos, Joaquim e Isaac, que tinham pouco mais de um ano quando ele morreu.
Janete acreditava que a paternidade poderia ajudá-lo a abandonar as drogas, mas isso não aconteceu. Nos últimos meses, ele passou a viver praticamente em situação de rua e estava debilitado. Também sabia que tinha tuberculose e, conforme a mãe, chegou a dizer que preferia morrer a permanecer na clínica.
Ela tentou contratar um plano de saúde e levá-lo ao médico para exames. Dhyogo tomou alguns remédios, mas não conseguiu manter o tratamento. Com o agravamento da doença e o retorno às ruas, ficou mais difícil para a família cuidar dele.
Um pedido para outras famílias
A morte do filho deixou Janete com uma dor que ela não imaginava sentir, mas também reforçou a mensagem que leva às famílias de pessoas que enfrentam a dependência química: não desistir.
Na clínica, ela observa que muitas mães continuam próximas dos filhos. Em datas como o Dia das Mães, a maioria dos acolhidos recebe lembranças enviadas por elas, enquanto poucos recebem presentes dos pais.
Janete reconhece que as tentativas frustradas podem levar a família ao esgotamento. Mesmo assim, afirma que abandonar o filho não é a solução. Para ela, a pessoa pode interpretar o afastamento como desistência e se envolver ainda mais com as drogas.
O marido costuma lembrá-la de que ela tentou tudo o que podia. A lembrança, porém, não reduz a saudade de Dhyogo, que morreu jovem e deixou dois filhos pequenos. Para Janete, a história dele não pode ser resumida à dependência química: ele era alegre, tinha um sorriso marcante e iluminava os lugares por onde passava.







