A história do construtivismo no Brasil não se resume a uma passagem ordenada da geometria para a experiência. A recepção de referências como o construtivismo russo, a arte concreta suíça, o De Stijl e as pedagogias da Bauhaus ocorreu em meio a disputas, diferenças regionais e mudanças na relação entre arte, sociedade e modernização.
Concretismo e neoconcretismo
Nos anos 1950, o Grupo Ruptura, em São Paulo, defendeu uma produção baseada em sistemas formais, clareza estrutural e universalidade. Essa orientação organizava a subjetividade por parâmetros considerados objetivos e também se conectava a discussões sobre industrialização, urbanização e modernização. Por isso, o concretismo atuava tanto no campo formal quanto no político.
No Rio de Janeiro, artistas do Grupo Frente, como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape, deslocaram o debate. A obra passou a ser pensada a partir da experiência, da fenomenologia e das relações entre corpo, espaço e tempo. O neoconcretismo, porém, não foi uma etapa natural nem uma simples reação à rigidez concreta. Sua formação envolveu tensões institucionais, disputas regionais, trajetórias diferentes e contextos específicos.
O MAM-Rio apareceu como espaço de experimentação, enquanto Mário Pedrosa contribuiu com uma crítica de orientação fenomenológica. Também havia diferenças entre o ambiente paulistano, mais associado ao industrialismo, ao design e à racionalidade técnica, e o carioca, marcado por discussões sobre subjetividade, corpo e experiência. Grupos, revistas, críticos e instituições participaram dos embates sobre o que seria a arte moderna no Brasil.
Mário Pedrosa, Aracy Amaral, Ronaldo Brito e Paulo Herkenhoff ajudaram a questionar a ideia de continuidade automática entre os dois movimentos. Em suas análises, aparecem divergências políticas e regionais, contradições internas, redes culturais e negociações que impedem uma leitura homogênea do período.
A revisão contemporânea
A produção atual amplia esse questionamento. Na série Uma Geometria à Brasileira, Rosana Paulino utiliza elementos geométricos para trazer ao centro experiências negra, feminina e colonial. A artista atribui à geometria o peso da história e contesta a noção de universalidade associada a parte das vanguardas dos anos 1950.
Laís Myrrha também tensiona esse legado em Contraplano, instalação apresentada no Inhotim. Ao trabalhar com concreto e aço, materiais ligados à industrialização e ao imaginário modernista, a artista envolve o corpo do espectador em deslocamentos perceptivos. A obra, instalada em uma região marcada pela mineração, relaciona a monumentalidade modernista às marcas sociais e ecológicas do projeto desenvolvimentista.
Gonçalo Ivo, Sergio Fingerman e Almandrade exploram relações entre cor, estrutura e percepção. Ernesto Neto, Laura Lima e Tunga desenvolvem práticas participativas e imersivas que dialogam com Lygia Clark e Hélio Oiticica, mas também deslocam ou confrontam o neoconcretismo.
Exposições como Direito à Forma (2023), no Inhotim, e O que temos em comum? Abstracionismos no MAC-USP (2025 e ainda em cartaz) mostram que o interesse pelo construtivo permanece ativo. As mostras apresentam esse legado como algo disputado, atravessado por questões sociais, raciais, territoriais e políticas.
A presença construtivista no Brasil, portanto, não forma uma linha contínua ou consensual. Ela funciona como um campo em constante transformação, no qual artistas revisitam as narrativas modernizadoras e expõem seus silêncios e contradições. Ao aproximar rigor formal de questões históricas e políticas, a produção contemporânea transforma esse repertório em instrumento de crítica sobre o passado e sobre os conflitos que ainda permanecem na arte brasileira.
*Alecsandra Matias de Oliveira é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP (Universidade de São Paulo).







