NOVA YORK — Os países do Escudo das Américas anunciaram a intenção de levar à Organização dos Estados Americanos (OEA) uma proposta de atuação conjunta contra o narcotráfico. A iniciativa ocorre depois que a coalizão classificou como “terroristas” 24 grupos ligados ao tráfico de drogas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O documento foi divulgado nesta semana, às margens da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. Liderado pelos Estados Unidos, o grupo reúne outros 14 países latino-americanos. A coalizão foi criada em março deste ano e atualmente é formada por EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
Pressão por adesão
No texto conjunto, os países afirmam que pretendem participar, em nível ministerial, de uma reunião formal do Órgão de Consulta da OEA. O objetivo seria avaliar uma resolução para facilitar uma ação coletiva contra organizações narcoterroristas com base no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), conhecido como Tratado do Rio.
Assinado em 1947, o acordo estabelece que a agressão a um Estado americano representa uma agressão aos demais Estados americanos. Para o professor de ciência política Danilo Enrico Martuscelli, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a escolha da OEA busca pressionar países que não aderiram à coalizão, como Brasil, México, Uruguai e Canadá.
“O recurso à OEA tem o propósito de dar alguma legitimidade institucional a essa política de pressão imperial aberta”, afirmou Martuscelli.
O governo brasileiro não foi convocado para participar da iniciativa. Brasília acompanha o movimento com cautela e mantém medidas de cooperação internacional contra o crime organizado com países da região. A posição oficial é aguardar a apresentação da proposta à OEA para decidir se apoiará ou rejeitará uma eventual resolução.
Combate às drogas e disputa econômica
Para especialistas em relações internacionais, o combate aos cartéis também pode servir para ampliar a influência dos Estados Unidos na América Latina e limitar a presença econômica da China. Robson Valdez, professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), avalia que o narcotráfico pode ser usado para legitimar ingerências na região.
Segundo Valdez, a coalizão sinaliza que os países latino-americanos precisariam rever suas relações com a China sob a perspectiva da política externa norte-americana. Ele também considera possível que a iniciativa seja usada para legitimar a presença física de tropas dos Estados Unidos sob o argumento de combate ao crime organizado.
O documento divulgado em Nova York associa as ações contra as drogas a medidas de “cooperação econômica”. Entre elas está a proteção das cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis. Esses insumos são usados nas indústrias de tecnologia, defesa e transição energética e estão no centro da disputa comercial e tecnológica entre Washington e Pequim.
O texto também defende regras para fornecedores de infraestrutura digital. Na avaliação de Valdez, o Escudo das Américas pode estimular a venda de equipamentos militares norte-americanos e reduzir a autonomia dos países para escolher parceiros de compras de armamento.
Martuscelli classificou a política do segundo mandato de Donald Trump como “de agressão imperial aberta”. Ao questionar a atuação dos Estados Unidos contra os cartéis, ele citou o indulto concedido por Trump ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por facilitar a importação de toneladas de cocaína para os Estados Unidos.
“O Escudo das Américas é uma retomada desse processo de tentativa de anexação colonial ou imperial dos países latino-americanos em relação aos EUA dentro de uma lógica geopolítica de disputa comercial e tecnológica com a China”, disse o professor.








