Anúncios de emprego com vagas inexistentes, confisco de passaportes e contratos militares que os recrutados não conseguem compreender estão entre os métodos usados pela Rússia para enviar estrangeiros à guerra na Ucrânia, afirmou a Anistia Internacional. A organização classificou o esquema como compatível com tráfico de seres humanos e pediu investigações aos governos envolvidos.
O relatório reúne entrevistas com prisioneiros de guerra que disseram ter assinado contratos militares com Moscou. Entre os estrangeiros citados estão brasileiros, colombianos, cidadãos do Sri Lanka e da África do Sul. Alguns relataram que viajaram para a Rússia atraídos por falsas oportunidades de trabalho e foram obrigados a se alistar depois da chegada.
Como funcionaria o recrutamento
Segundo a organização, os recrutadores também procuram estrangeiros que vivem de forma irregular na Rússia. A eles, seriam oferecidos autorização de residência ou passaporte em troca do alistamento. A Anistia afirmou ainda que a Rússia costuma buscar, no exterior, homens com menos de 40 anos que vivem em países mais pobres e são atraídos pela promessa de emprego.
A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, disse que os recrutados têm os documentos confiscados, são pressionados a assinar papéis que não entendem e passam por treinamentos básicos antes de serem enviados ao front. “Basicamente, são bucha de canhão”, afirmou.
Um caminhoneiro sul-africano citado no relatório contou que foi chamado a Moscou para trabalhar como motorista. Ao chegar, teve todos os seus pertences confiscados. Prisioneiros estrangeiros também relataram dificuldade para conversar com superiores por causa da barreira do idioma.
Números e pedidos de investigação
A Ucrânia estimou em abril que mais de 28 mil estrangeiros de 136 países combatiam no Exército russo. As autoridades ucranianas também afirmaram que cerca de 14 mil soldados norte-coreanos lutaram contra as forças de Kiev durante a ofensiva ucraniana na região russa de Kursk, em 2024.
Moscou e Kiev recrutam estrangeiros desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, há quatro anos e meio. Nenhum dos dois governos divulgou o total de combatentes estrangeiros em suas fileiras. A Anistia disse que não conseguiu falar com estrangeiros mantidos presos na Rússia porque foi classificada por Moscou como “agente estrangeiro”.
A definição das Nações Unidas considera tráfico de seres humanos o recrutamento, transporte ou alojamento ilegal por meio de fraude, engano ou abuso de poder. Para Callamard, o crime envolve deslocamento de pessoas, meios coercitivos, falsas promessas, violência e exploração.
A organização pediu à Ucrânia e aos países de origem dos estrangeiros que apresentem provas para que os responsáveis sejam processados. Até o momento, as autoridades russas não se pronunciaram publicamente sobre as acusações. A Rússia já rejeitou, em outras ocasiões, denúncias de que obrigaria estrangeiros a se alistar no Exército.








