O custo do crédito mudou a conta das compras no varejo. Um celular de R$ 1 mil financiado em julho teria prestação de R$ 99, enquanto o mesmo produto comprado em janeiro ficaria em R$ 84. A diferença considera as taxas médias e os prazos registrados em cada período.
Os dados são do Banco Central, compilados por Fabio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em julho, o financiamento médio para bens — sem veículos — ficou em 16,2 meses, o menor resultado para o mês desde 2018. Em janeiro, o prazo médio era de 19,5 meses.
Na comparação do celular, a taxa média foi de 5,96% ao mês em julho, com prazo de 16 meses. Em janeiro, os juros eram de 5,39% ao mês, e o pagamento podia ser distribuído por 19,5 meses.
Crédito mais restrito
A combinação de prazos menores e juros maiores ocorre em um cenário de aumento da inadimplência. As operações de financiamento alcançaram, em julho, o maior índice para o mês desde 2017: 11,5%. Os atrasos entre 15 e 90 dias representaram 5,76% do total emprestado, o maior nível para julho desde 2019.
Para Fabio Bentes, a redução dos prazos pode estar ligada ao comportamento dos consumidores, que evitam compromissos longos, ou à diminuição da oferta por bancos e varejistas que trabalham com crédito próprio. Os dados do Banco Central não indicam qual dos dois fatores tem maior peso.
O encarecimento também aparece no crédito usado pelas empresas. O capital de giro do varejo teve taxa média de 25% ao ano, a maior desde 2017. “Há quase nove anos a situação do crédito não era tão preocupante”, afirmou Bentes, considerando comerciantes e consumidores.
Até julho, o varejo restrito, que não inclui veículos nem atacado, acumulou crescimento de 1,8%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com exceção de 2024, quando avançou 4,1%, o setor tem crescido perto de 2% ao ano. Para Bentes, trata-se de “quase um crescimento vegetativo”.
Um relatório do Santander apontou que o crédito livre avançou entre 2023 e 2024 nas famílias com renda acima de três salários mínimos. Entre os grupos de menor renda, porém, o saldo ficou praticamente estável, justamente entre os consumidores que mais dependem do crediário e do parcelamento.







