A relação entre vinho e saúde não cabe em uma resposta que o classifique apenas como benéfico ou prejudicial. O etanol presente na bebida é reconhecido pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a Iarc, como cancerígeno comprovado para seres humanos. O consumo de álcool está associado a pelo menos sete tipos de câncer, incluindo os de mama, colorretal, fígado, esôfago, boca, faringe e laringe.
Em 2020, o álcool foi relacionado a cerca de 741 mil novos casos de câncer no mundo, equivalentes a mais de 4% dos diagnósticos oncológicos. Mais de 40 mil desses casos foram atribuídos a níveis de consumo inferiores ou iguais a aproximadamente 10 gramas de álcool por dia, quantidade próxima à de uma pequena taça de vinho. O risco não é igual em todas as situações: ele aumenta conforme a dose, a frequência e o tempo de exposição.
O que os estudos mostram sobre possíveis benefícios
Pesquisas também identificaram efeitos favoráveis associados ao consumo moderado, principalmente em indicadores cardiovasculares e metabólicos. No estudo Cascade, 224 pessoas com diabetes tipo 2 e sem o hábito de beber consumiram, durante dois anos, vinho tinto, vinho branco ou água no jantar, dentro de uma dieta mediterrânea controlada.
Entre os participantes que tomaram vinho tinto, houve aumento médio do colesterol HDL de cerca de 2 miligramas por decilitro. O resultado, porém, foi observado em um biomarcador. Ele não comprova redução de infartos, acidentes vasculares cerebrais ou mortes. O período de dois anos e o tamanho da amostra também são insuficientes para avaliar doenças que se desenvolvem ao longo de décadas.
Outra possibilidade envolve os polifenóis, encontrados principalmente no vinho tinto e nas uvas. Estudos relacionaram essas substâncias à função vascular, à pressão arterial e a processos oxidativos. Em alguns experimentos, o vinho sem álcool apresentou resultados iguais ou melhores que os da bebida com álcool, o que sugere que os possíveis efeitos favoráveis podem estar ligados aos compostos da uva, e não ao etanol. Frutas vermelhas, uvas, romã, cacau, chá e azeite extravirgem também contêm substâncias desse tipo.
A dúvida sobre a proteção cardiovascular
Estudos observacionais descreveram uma curva em J: consumidores moderados apresentariam risco cardiovascular menor que abstêmios, enquanto o risco subiria entre pessoas que bebem muito. Algumas revisões associaram o consumo moderado a uma redução estimada da mortalidade cardiovascular entre 10% e 20%.
Essa comparação pode ser influenciada pelo perfil de quem bebe moderadamente. Essas pessoas podem ter renda mais alta, maior escolaridade, alimentação mais equilibrada, acesso ampliado à prevenção, mais atividade física e o hábito de consumir vinho junto às refeições. Abstêmios também podem incluir ex-consumidores que deixaram de beber por problemas de saúde, medicamentos ou histórico de consumo problemático.
Uma meta-análise baseada em mais de 4,8 milhões de participantes indicou que, após a correção de problemas metodológicos, a redução da mortalidade entre consumidores de níveis baixos ou moderados deixou de ter significância estatística. Os níveis mais altos, por outro lado, continuaram associados ao aumento da mortalidade.
O papel da convivência
O vinho também pode fazer parte de experiências de prazer, pertencimento e integração social. Uma meta-análise com 148 estudos e mais de 300 mil participantes mostrou que pessoas com relações sociais sólidas tinham probabilidade de sobrevivência cerca de 50% maior que aquelas socialmente isoladas.
Em uma análise com mais de 30 mil pessoas e mais de dois milhões de registros de um aplicativo, o nível de felicidade relatado aumentava, em média, quase quatro pontos em uma escala de zero a cem durante o consumo de álcool. O efeito se limitava ao momento do consumo: no longo prazo, beber não estava associado a maior satisfação com a vida.
Outro experimento envolveu 720 consumidores sociais de bebidas alcoólicas. Os participantes que receberam álcool sorriram mais, interagiram mais e demonstraram maior coesão do que os que receberam placebo ou bebida sem álcool. O resultado aponta para uma facilitação temporária da socialização, não para felicidade duradoura ou proteção contra doenças.
Uma taça consumida durante uma refeição compartilhada está inserida em um contexto de conversa, comida, tempo dedicado aos outros e pertencimento cultural. A dieta mediterrânea, nesse sentido, não é apenas uma lista de alimentos: também envolve regularidade das refeições, comida preparada em casa, consumo lento e compartilhamento da mesa.
O álcool não se torna saudável por ser consumido com prazer. Os riscos biológicos permanecem, especialmente em relação ao câncer. Ao mesmo tempo, prazer, relações sociais e convivência têm importância para o bem-estar. A conclusão mais cautelosa é que o vinho pode participar de uma experiência cultural e social, mas não deve ser tratado como medicamento ou como instrumento de prevenção cardiovascular.







