O Alzheimer costuma comprometer primeiro a capacidade de registrar informações recentes. Ainda assim, lembranças biográficas, habilidades, hábitos e vínculos afetivos podem permanecer preservados por anos, segundo o neurologista Pedro Levi, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), vinculado à HU Brasil.
A dificuldade de formar novas memórias é chamada de amnésia anterógrada. Ela pode aparecer quando a pessoa esquece onde colocou um objeto, repete perguntas, deixa uma panela no fogo ou não se recorda de algo que acabou de acontecer. Essa função depende dos hipocampos, estruturas cerebrais envolvidas na consolidação inicial das lembranças e importantes para a independência nas tarefas cotidianas.
O que pode continuar preservado
As memórias relacionadas à história pessoal, aos valores, aos hábitos e às habilidades motoras seguem outro caminho. Essas informações ficam em regiões do cérebro que tendem a resistir por mais tempo ao processo de neurodegeneração. Por isso, a perda da capacidade de registrar acontecimentos recentes não significa que a biografia da pessoa desapareceu.
O reconhecimento racional de nomes e rostos pode falhar, mas as reações emocionais ainda podem permanecer. Uma pessoa com Alzheimer talvez não consiga dizer quem é um familiar, mas pode demonstrar alegria, tranquilidade ou sensação de segurança diante dele. Isso ocorre porque memória e emoção dependem de circuitos diferentes, incluindo a amígdala e o sistema límbico.
Fotografias, músicas, objetos, cheiros e ambientes familiares podem ajudar a reduzir a agitação, melhorar o humor e transmitir proteção. Elementos ligados à história do paciente também podem facilitar o adormecimento e contribuir para manter um estado de humor positivo.
Autonomia com segurança
Tratar o paciente como criança ou afastá-lo cedo demais das decisões pode favorecer a perda de habilidades preservadas, além de causar frustração e isolamento. A recomendação é reconhecer suas emoções, valorizar o que ainda consegue fazer e preservar sua dignidade.
Isso não significa ignorar os riscos. Chaves do fogão, medicamentos e produtos tóxicos devem ficar protegidos, enquanto escolhas simples podem ser mantidas: decidir entre duas roupas, escolher uma refeição ou definir o horário do banho. O objetivo é permitir que a pessoa continue exercendo controle sobre a própria vida dentro de uma margem segura.
Quando procurar avaliação
Esquecimentos ocasionais podem fazer parte do envelhecimento. O alerta surge quando as falhas prejudicam a rotina, como ao perder compromissos com frequência, deixar de pagar contas, não conseguir preparar uma refeição conhecida, ter dificuldade para voltar para casa ou repetir constantemente as mesmas perguntas.
Pessoas com mais de 50 anos que percebem episódios recorrentes de esquecimento devem procurar avaliação neurológica, mesmo sem prejuízo evidente nas atividades diárias. Pedro Levi afirma que exames e métodos atuais permitem identificar alterações cognitivas em fases iniciais.
O diagnóstico altera a rotina do paciente e da família, mas não elimina sua história, seus sentimentos ou sua capacidade de fazer escolhas. O cuidado deve combinar proteção, respeito e espaço para as habilidades que continuam presentes.








