O silêncio pode assumir um papel central na narrativa jornalística, especialmente quando a fala interfere na possibilidade de encontrar sobreviventes. Essa situação ocorreu durante a cobertura do terremoto na Colômbia, em agosto de 2026, quando a jornalista Luciana Tadeu precisou interromper a narração em reportagens feitas a partir de Cali.
Deslocada de Buenos Aires, onde cobre a América Latina para a CNN, Luciana acompanhava operações de resgate em áreas com edifícios desabados. Com a mão diante da boca, sinalizou que, depois dos apitos e dos comandos das equipes, era necessário suspender a transmissão verbal. O objetivo era permitir que os profissionais ouvissem possíveis gritos de pessoas ou de animais domésticos sob os escombros.
Durante esses momentos, a jornalista se afastava do centro da imagem. Sem a narração, os espectadores permaneciam atentos à expectativa de algum ruído indicar vida. Como nenhum som surgia, os âncoras locais retomavam a condução da cobertura.
Um precedente na televisão brasileira
Outra experiência marcante de silêncio jornalístico ocorreu no enterro de Tancredo Neves, em São João Del Rei (MG), em abril de 1985. Durante a transmissão da TV Globo, repórteres e âncoras deixaram de falar enquanto o sepultamento era realizado no cemitério da Ordem Terceira de São Francisco de Assis.
Por vinte minutos, permaneceram audíveis apenas os sons das pás de terra e dos trabalhos que encerravam a sepultura. A ausência de comentários abriu espaço para que os telespectadores construíssem suas próprias emoções e interpretações diante daquele momento ligado à redemocratização.
A palavra continua sendo uma unidade essencial das narrativas jornalísticas, mas seu sentido depende da construção da frase. Por isso, o silêncio não representa necessariamente falta de comunicação. Em determinadas situações, ele pode permitir uma participação mais aberta do público.
Essa reflexão também alcança os emojis. Embora os símbolos possam transmitir sentimentos, seu uso recorrente pode limitar as possibilidades de uma narrativa autoral. O silêncio verbal, assim como os espaços deixados entre parágrafos em uma reportagem, pode funcionar como recurso expressivo.
A proposta não é rejeitar sinais de exclamação, reticências ou desenhos sintéticos. É reconhecer a força da construção sintática e a possibilidade de interromper, em momentos específicos, a voz de quem narra para abrir espaço à partilha coletiva.
Cremilda Medina é professora da Escola de Comunicações e Artes da USP.







