A imagem dos muçulmanos no imaginário internacional mudou de forma profunda após os atentados de 11 de setembro. Para a professora da USP Francirosy Campos Barbosa, as representações produzidas pela mídia contribuíram para associar pessoas muçulmanas ao terrorismo, enquanto deixavam em segundo plano o fato de que populações islâmicas também estiveram entre as principais vítimas dessa violência.
Na época dos ataques, Barbosa participava de uma reunião do Grupo de Antropologia Visual, no Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Mariana Vanzolini comunicou ao grupo o que estava acontecendo. Ao ouvir as primeiras notícias que atribuíam os atentados a árabes e muçulmanos, a pesquisadora procurou uma amiga da comunidade islâmica.
Poucos dias antes, ela havia entregue sua dissertação de mestrado, com defesa marcada para 2 de outubro. O trabalho, intitulado Imagem oculta: reflexões sobre a relação entre os muçulmanos e a imagem fotográfica, examinava as fotografias produzidas por muçulmanos para apresentar a si mesmos e construir suas próprias narrativas. Também analisava como a imprensa e a própria pesquisadora os representavam.
Da representação ao preconceito
O tema ganhou ainda mais importância depois dos atentados. Segundo Barbosa, o mundo passou a produzir novas imagens sobre os muçulmanos e o Islam, e a representação do terror se impôs de maneira devastadora. Pesquisadores que estudavam o assunto receberam mensagens e contatos de diferentes setores, além de propostas para desenvolver pesquisas nos Estados Unidos, com bolsas e financiamentos.
Ao longo dos anos seguintes, muçulmanos se tornaram alvos frequentes da mídia, das manchetes e do discurso de ódio internacional. A islamofobia cresceu, levando Barbosa a ampliar sua atuação acadêmica para compreender não apenas as imagens que as pessoas produzem de si mesmas, mas também aquelas construídas contra elas.
A pesquisadora afirma ter acompanhado, no trabalho de campo, os efeitos sobre a comunidade islâmica no Brasil em 2001, 2002, 2003 e nos anos posteriores. Ela relata marcas provocadas por suspeitas, estereótipos, preconceitos e diferentes formas de violência dirigidas a pessoas que não tinham relação com os atentados.
A novela O Clone, que estreou em 1º de outubro de 2001, colocou em circulação outras imagens e narrativas sobre muçulmanos, árabes e o Islam. Para Barbosa, porém, isso não foi suficiente para desfazer a associação construída de maneira violenta no imaginário social.
Imagens, guerras e silêncios
A reflexão da professora também aborda os conflitos que atingiram países de maioria muçulmana depois do 11 de setembro, como Afeganistão e Iraque. Entre os temas está o silenciamento sobre a violência sexual contra mulheres durante a Guerra do Iraque.
O artigo Guerra de imagens e imagens da guerra: estupro e sacrifício na Guerra do Iraque, de Carmen Rial, analisa a ausência de cobertura da mídia global sobre estupros de mulheres muçulmanas cometidos por soldados e mercenários norte-americanos no Iraque. A discussão considera tanto as imagens produzidas quanto os silêncios que cercaram essas violências e a representação das mulheres em um ambiente de guerra marcado pela presença masculina.
Barbosa destaca ainda o paradoxo de que muçulmanos tenham sido associados sistematicamente ao terrorismo, embora populações islâmicas estejam entre as mais atingidas por ele. Essa realidade aparece em países como Iraque, Afeganistão, Paquistão e Síria e, mais recentemente, em regiões africanas com expressiva população muçulmana.
Vinte e cinco anos depois, a pesquisadora continua produzindo etnografias, formando novos pesquisadores e desenvolvendo estudos sobre o Islam e comunidades islâmicas no Brasil, em contextos de diáspora e no Oriente Médio. Para ela, as imagens não apenas representam o mundo: também produzem imaginários, alimentam medos e influenciam quem será visto como semelhante ou transformado em ameaça.
A professora afirma que falar sobre o 11 de setembro é necessário para manter a conexão com um passado cujos efeitos continuam dolorosos para muçulmanos em diferentes partes do mundo. Nesse processo, estereótipos que retratam mulheres muçulmanas como submissas e homens muçulmanos como terroristas seguem presentes na mídia impressa, televisiva e nas redes sociais, reforçando preconceitos e diferentes formas de islamofobia.







