Um fundo registrado no Texas passou a ser investigado pela Polícia Federal em uma apuração sobre repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A PF verifica se parte do dinheiro teria sido usada para custear o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Flávio afirma que os valores foram destinados integralmente à produção de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. Na quarta-feira (14/5), ele negou que o dinheiro tivesse sido direcionado ao irmão. Na sexta-feira, voltou a rejeitar essa hipótese e disse que Eduardo vive de uma doação do pai e de reservas próprias.
“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, afirmou Flávio.
Eduardo mora nos EUA desde fevereiro de 2025. Na última segunda-feira (11/5), a Procuradoria-Geral da República pediu a condenação do deputado federal cassado por coação no curso de processo. A acusação envolve a articulação, a partir dos Estados Unidos, de sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras durante o julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
Em 2025, Jair Bolsonaro enviou R$ 2 milhões ao filho nos Estados Unidos. Na ocasião, o Supremo Tribunal Federal considerou o envio um indício concreto de articulação entre pai e filho para interferir na atuação do Judiciário brasileiro.
A relação com o filme
Eduardo negou ter recebido dinheiro de Vorcaro e afirmou que apenas cedeu seus direitos de imagem para a produção. Depois, documentos relacionados ao longa-metragem indicaram que ele teria exercido uma função de liderança no projeto.
Um contrato datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024 apresenta a GoUp Entertainment, sediada nos EUA, como produtora. O documento também coloca Eduardo e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) à frente da produção-executiva de Dark Horse.
A defesa de Mario Frias afirmou que Eduardo não é nem foi produtor-executivo do filme e que nunca recebeu valores do fundo. Eduardo, por sua vez, disse ter investido R$ 350 mil no início da produção e afirmou que foi reembolsado depois da entrada de investidores. Segundo ele, naquele momento atuava como diretor executivo do projeto.
“Quando a estrutura passou a ser uma estrutura de fundo de investimento, começou a ter outra estrutura, eu saí dessa posição de diretor executivo”, disse Eduardo em vídeo publicado nas redes sociais.
Como o Havengate aparece nas transações
O fundo investigado é o Havengate Development Fund LP. Documentos financeiros indicam que ao menos parte dos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) pagos por Vorcaro a Flávio entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, teria sido transferida para o Havengate por meio da Entre Investimentos e Participações.
O grupo Entre é liderado por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Ele foi alvo da segunda fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master e Vorcaro.
Após a operação, o Banco Central decretou em março deste ano a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento e, por extensão, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, que fazem parte do Conglomerado Entrepay. A Entre nega vínculo societário, de controle ou de governança com Vorcaro.
A investigação considera a possibilidade de os recursos terem sido enviados ao exterior por meio da Entre e do Havengate depois de dificuldades operacionais para realizar a remessa internacional. Em fevereiro de 2025, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela PF como principal operador financeiro do banqueiro, teria relatado recusas do setor de câmbio do Banco Master. Vorcaro então teria orientado que o pagamento fosse feito “via entre”.
Advogado de Eduardo aparece nos registros
No registro do fundo no Texas, o agente legal é o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo nos Estados Unidos. O Havengate aparece como propriedade da Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas, no Texas, onde funciona o escritório.
A empresa tem Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana entre seus membros. Santana também aparece como sócio-administrador da Calixsan Capital Management e agente imobiliário na Sanmo Realty. Antes disso, afirmou ter trabalhado no Banco Espírito Santo e no Banco do Brasil, ambos em Miami.
Calixto é advogado especializado em imigração e atua com o visto EB-5. Formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, ele vive nos Estados Unidos há mais de 20 anos e ajudou Eduardo em seu processo de visto.
Flávio considerou natural que o advogado responsável pelo processo migratório do irmão também administrasse o fundo. Eduardo destacou a experiência profissional de Calixto e afirmou que o escritório atua com gestão patrimonial e fundos de investimento há mais de uma década.
Por que a investigação depende de cooperação internacional
Fundos offshore são veículos de investimento instalados fora do país de residência do investidor. Em algumas jurisdições, os registros podem não revelar os cotistas nem o beneficiário final dos recursos. Também existem estruturas em cascata, nas quais fundos controlam outros fundos, dificultando a identificação do verdadeiro proprietário.
A regulação internacional começou a mudar em 2010, com novas regras de compartilhamento de informações financeiras. Naquele ano, os Estados Unidos colocaram em vigor o Foreign Account Tax Compliance Act (Fatca), que obriga instituições financeiras estrangeiras a informar às autoridades americanas sobre contas de cidadãos dos EUA.
Em 2014, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico criou o Common Reporting Standard (CRS). O Brasil aderiu formalmente ao padrão em 2016, que prevê a troca automática de informações entre mais de cem países signatários.
Os Estados Unidos, porém, não aderiram ao CRS. Com isso, instituições estrangeiras informam dados aos EUA, mas não há compartilhamento automático equivalente sobre estrangeiros que investem no país.
Para investigar fundos como o Havengate, a PF depende de cooperação com o FBI ou com instituições americanas. O auditor fiscal Roberto Alvarez, do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, afirmou que a operação chama atenção pelo volume movimentado e pela falta de esclarecimento sobre a origem dos recursos.








