A democracia enfrenta uma crise que ultrapassa as instituições políticas e alcança as condições sociais que sustentam a participação cidadã. O diagnóstico foi apresentado durante a 5ª edição do seminário USP Pensa Brasil, realizado pela Universidade de São Paulo entre 14 e 18 de setembro de 2026, com o tema Crise da democracia e violência social.
As discussões relacionaram o cenário brasileiro a uma crise de dimensão global. Entre os sinais estão o enfraquecimento das instituições democráticas e dos organismos internacionais, a presença de governos e movimentos autoritários e a dificuldade dos sistemas políticos para responder às demandas sociais.
Participação reduzida e instituições fragilizadas
A análise aponta que a democracia passou a ser associada principalmente ao voto periódico. Experiências voltadas à participação direta, como o orçamento participativo, tiveram alcance limitado e não se consolidaram de forma abrangente. Com isso, aumentou a distância entre a esfera política e a sociedade, enquanto as instituições passaram a encontrar dificuldades para oferecer respostas efetivas.
Esse processo também envolve o encolhimento da esfera pública, a fragmentação das identidades e das formas de ação coletiva e a redução da capacidade de promover bem-estar social. Para Maria Arminda do Nascimento Arruda e Alexandre Macchione Saes, a fragilização democrática está ligada às promessas não realizadas de ampliação da cidadania, da igualdade e da participação política.
Nesse ambiente, surgem estruturas oligárquicas de poder associadas à corrupção e à captura das instituições. O enfraquecimento da democracia, porém, não ocorre apenas por golpes de Estado ou rupturas institucionais explícitas. Ele também pode avançar dentro das próprias instituições, pela erosão gradual de regras, práticas e mecanismos de controle.
Redes sociais e desconfiança
A expansão das redes sociais e a disseminação da desinformação em escala industrial alteraram a circulação de informações e a formação das opiniões públicas. Esse cenário amplia e instrumentaliza a perda de confiança em atores, instituições e procedimentos democráticos.
Ao mesmo tempo, movimentos antissistema passaram a questionar não apenas governos específicos, mas também os fundamentos e os mecanismos de funcionamento da ordem democrática. A combinação entre polarização, radicalização política e desconfiança contribui para o esvaziamento progressivo das instituições, sem que seja necessária sua eliminação formal.
A cidadania também é afetada pela adoção de uma lógica empresarial e gerencial para pensar o Estado. Essa transformação pode afastá-lo da função de garantir a participação cidadã e de construir espaços coletivos. A valorização do indivíduo e do individualismo, por sua vez, enfraquece vínculos coletivos e formas de solidariedade necessárias à manutenção de uma esfera pública democrática.
Desigualdade e violência no Brasil
No Brasil, a crise democrática se relaciona à fragilidade histórica da construção democrática e às desigualdades econômicas e sociais. Esses obstáculos limitam a realização da cidadania e da participação política e se articulam a diferentes formas de violência social e exclusão.
Entre as manifestações citadas estão o racismo, a desigualdade de gênero e as diversas formas de violência contra as mulheres. A mistura entre religião e poder, em um contexto de fragilização das instituições oficiais orientadas pelos princípios do Estado laico, também aparece como uma dimensão do autoritarismo contemporâneo.
A reconstrução da esfera pública é apresentada como uma condição para ampliar a sociabilidade, a cidadania e a participação política. Nesse processo, as universidades públicas brasileiras são chamadas a recuperar seu papel histórico na defesa de valores democráticos e da justiça social.







