A PrEP injetável de longa duração pode ampliar o acesso à prevenção do HIV no SUS sem substituir a versão em comprimidos, usada diariamente por mais de 150 mil pessoas no país. O medicamento mais próximo de chegar ao sistema brasileiro é o cabotegravir, produzido pela GSK, que mantém a proteção por dois meses após a aplicação.
A previsão é que o produto seja disponibilizado no segundo semestre de 2026, caso avance pelas etapas de incorporação. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento há três anos.
Como será o uso
A aplicação ocorre mensalmente nos dois primeiros meses. Depois, a pessoa volta à unidade de saúde a cada dois meses. Em estudo realizado pela GSK, a proteção observada foi superior a 99%, segundo Roberta Correa, diretora da unidade de negócios de Virologia da farmacêutica.
A decisão sobre a entrada do cabotegravir no SUS depende de parecer da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), ligada ao Ministério da Saúde. Roberta afirmou que, se o parecer for positivo em outubro, a empresa pretende concluir as negociações para disponibilizar o medicamento ainda neste ano.
Público prioritário
Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV/AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI), do Ministério da Saúde, disse que o plano inicial prevê cerca de 3 mil tratamentos. Parte será usada em um estudo de implementação, e outra parte será destinada a populações específicas.
A estratégia busca alcançar pessoas que não têm cobertura satisfatória com a PrEP oral, especialmente mulheres cis e transgênero e travestis. Atualmente, 80% dos usuários da PrEP diária são homens que fazem sexo com homens (HSM), conforme o painel de acesso citado pelo diretor.
A versão injetável também pode ajudar pessoas que interrompem o tratamento ou enfrentam estigma por manter os comprimidos em casa. Entre os jovens de 18 a 24 anos, mais de metade abandona a prevenção, de acordo com Draurio. Com a aplicação bimestral, não seria necessário guardar o medicamento ou levá-lo para outros locais.
O estudo de implementação será realizado nas cinco regiões brasileiras e vai avaliar diferentes formas de prevenção: a pílula diária, o cabotegravir injetável e um anel vaginal voltado a mulheres cisgênero. O anel, já aprovado por agências internacionais, tem baixa eficácia e, no Brasil, deverá ser oferecido como segunda barreira, junto da PrEP oral e da camisinha.
Outras opções em desenvolvimento
O lenacapavir, da Gilead Sciences, oferece proteção por seis meses após a aplicação, mas ainda não tem acordo para entrar no Brasil. A negociação enfrenta divergências relacionadas ao custo. A empresa anunciou acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para integrar o Fundo Rotatório.
Segundo a Opas, os países elegíveis poderão solicitar a aquisição dos tratamentos a partir de outubro de 2026. A disponibilidade em cada país dependerá dos processos regulatórios, do planejamento das compras, do financiamento e da preparação dos programas de saúde. O Brasil está entre os 14 países que podem participar.
A Gilead também se comprometeu a avançar nas negociações para transferir a tecnologia do lenacapavir, o que permitiria a produção no Brasil. Até o momento, não foram anunciados acordos nesse sentido.
Outra alternativa é o Alimatravir, da MSD, um comprimido mensal que está na fase 3 de desenvolvimento. A empresa ainda não definiu o preço para o mercado. A proposta é que o medicamento comece a agir 1 hora após o uso e mantenha a proteção durante um mês. Depois de tomar o comprimido por dois, três ou quatro meses, a pessoa poderia ter uma janela de esquecimento de uma semana com a proteção preservada. A confirmação depende dos resultados da fase 3.








