Betty Milan afirma que a literatura depende de liberdade e ousadia. Escritora, ensaísta e psicanalista, ela também critica a pressão para que autores se submetam à lógica das redes sociais e do mercado. Para Milan, o trabalho literário exige tempo e não deve abandonar o estilo de quem escreve.
Da medicina à psicanálise
Milan conta que sempre quis ser escritora, mas seguiu a expectativa familiar e cursou Medicina, como o pai. Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo aos 18 anos, em uma época em que havia apenas cinco mulheres em uma turma de cem. Ainda durante a graduação, começou a estudar Psicanálise em um grupo formado por Regina Schneiderman e fez análise com Isaías Melsohn.
No terceiro ano da faculdade, foi convidada a entrar na Sociedade Brasileira de Psicanálise, mas não permaneceu na instituição. Entre os motivos citados por ela estão a orientação behaviorista dos didatas e o autoritarismo. Mais tarde, fez sua formação na França, experiência que descreve como um renascimento em Paris, onde encontrou liberdade para se formar como psicanalista e escrever.
Milan introduziu Lacan no Brasil e escreveu mais de trinta livros, traduzidos para várias línguas. Ela diz que não construiu essa trajetória pensando em uma carreira, mas por interesse profundo pela Psicanálise e pela Literatura. Também passou a usar as redes sociais para a comunicação oral, embora considere que chegou tarde a esse formato.
Para a escritora, abordagens terapêuticas que ignoram o inconsciente não promovem uma mudança verdadeira. A teoria, segundo ela, se relaciona com a ciência, enquanto a prática psicanalítica é uma arte. Na análise, o paciente pode atravessar uma experiência subjetiva e se reinventar.
A experiência com Jacques Lacan
Betty Milan trabalhou com Jacques Lacan entre 1974 e 1978, mas esclarece que não se tratava de uma convivência ou interlocução no sentido tradicional. Eram sessões de análise nas quais ela falava livremente e interpretava o corte feito por Lacan.
A experiência foi relatada por ela no livro Lacan ainda. A obra chegou a leitores da França, dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Turquia e de países árabes. Milan também relaciona sua repercussão à adaptação cinematográfica de sua peça Adeus Doutor, dirigida em Nova York por Richard Ledes e transformada no filme Adieu Lacan.
Segundo a escritora, a análise ajudou na aceitação de suas origens e de seu sexo. Ela também afirma ter superado a autoxenofobia e a desqualificação do sexo feminino presentes na colônia árabe. Milan é neta de imigrantes libaneses e conta que seu avô materno lamentou seu nascimento por ela ser menina. Em contraste, descreve o pai como feminista.
Escrita, humor e liberdade
O primeiro texto de ficção de Milan foi O Sexophuro, hoje incluído na Trilogia do amor. A obra deu origem ao primeiro livro cassete feito no Brasil, Uma mulher, dito pela atriz Nathália Timberg. Depois, Timberg encenou a peça Paixão em vários estados do país.
Milan afirma que sua escrita não nasceu da vivência com pacientes, mas de uma vocação manifestada desde a infância. Ela gostava de escrever peças e dirigir suas encenações. Seu segundo texto de ficção foi O Papagaio e o Doutor, inspirado na análise com Lacan. A autora levou cinco anos para escrever o romance, que mais tarde também foi publicado na França e será lançado na Inglaterra pela Routledge.
Outro romance citado por Milan é Baal, finalista do prêmio Oceanos e premiado com o Cedro do Líbano pela contribuição ao país dos ancestrais. Para ela, a literatura precisa manter compromisso com a verdade, e não com uma ideologia específica. O humor e a sátira, nesse sentido, podem contribuir para o senso crítico.
A escritora também critica a exigência de atualidade imposta pelas redes. Ela considera que autores como Victor Hugo, Flaubert, Baudelaire, Oswald e Mario de Andrade foram modernos sem precisar se submeter a esse tipo de cobrança. Milan usa as redes para divulgar valores em séries como ABC da Vida e ABC do Machismo, mas diferencia esse trabalho de comunicação da literatura.
Violência, intolerância e inteligência artificial
Ao abordar o machismo, Milan afirma que o poder é dogmático e relaciona essa característica à violência contra as mulheres. Ela preparou uma série de vídeos sobre amor e machismo para apresentação em um evento da Academia Paulista de Letras, com participação de Djamila Ribeiro e Renato Nalini. Para a escritora, considerar o estupro uma arma de guerra legítima é tão absurdo quanto a própria normalização da guerra.
Milan também vê a intolerância como resultado da dificuldade de respeitar diferenças e controlar impulsos. Em sua avaliação, a polarização decorre do fanatismo, que por sua vez é efeito da ignorância.
A escritora trabalha em um romance sobre o negacionismo durante a pandemia e seus efeitos. O projeto tem caráter político e já ocupa anos de trabalho. Ela espera concluí-lo este ano, mas ainda não sabe quais serão seus desdobramentos.
Sobre a inteligência artificial, Milan diz que a grande literatura continuará se impondo, embora os escritores possam precisar entrar nas redes. Ela considera que a tecnologia faz colagens que os seres humanos não conseguem fazer da mesma maneira, mas não cria algo realmente novo. Para a autora, a criação também depende do corpo humano.







