A concentração das agressões em poucos perfis é um dos principais dados do monitoramento realizado pela plataforma Sentinela. Um grupo de 224 contas mais ativas publicou 1.718 comentários ofensivos contra candidaturas LGBT+, dentro de um conjunto de 13 mil mensagens com alvo definido desde o início do período eleitoral.
A análise também encontrou mais de 11 mil contas diferentes envolvidas nos ataques. A Sentinela considera que a repetição de conteúdos em intervalos muito curtos pode indicar uma ação coordenada. Em um caso relacionado a uma candidatura de Goiás, a mesma mensagem foi reproduzida por 63 contas em pouco tempo.
“Quando tem a mesma mensagem repetida por 63 contas em um intervalo muito curto de tempo, como a gente verificou contra uma candidatura de Goiás, a gente tem forte indício de que isso foi coordenado”, avaliou Gui Mohallem, da direção executiva do Instituto Plena Cidadania.
Como o monitoramento foi feito
A Sentinela selecionou 307.185 comentários publicados em contas de candidaturas que apresentavam potencial de violência e podiam ser acompanhadas pelo projeto. Esse recorte faz parte de um universo de mais de 1 milhão de interações no Instagram.
Cada comentário foi avaliado a partir de quatro critérios: a existência de violência, a identificação do alvo, a presença de conteúdo LGBTfóbico e a verificação de que esse conteúdo atingia diretamente a candidatura monitorada.
A metodologia combina coleta automatizada, classificação e inteligência artificial generativa. O desenvolvimento foi feito pelo Instituto Plena Cidadania (IPC), organização da sociedade civil responsável pelo VoteLGBT.
Segundo a plataforma, o estudo adota um critério conservador para evitar classificações equivocadas. Quando o contexto de uma mensagem é ambíguo, o caso não entra na contagem. A análise também observa a recorrência dos ataques, o comportamento dos perfis e a reprodução de conteúdos semelhantes.
Mulheres e candidaturas negras são os principais alvos
A atualização do levantamento continua durante o processo eleitoral. Até agora, 92,7% das agressões registradas foram dirigidas a candidaturas de mulheres LGBT+. Em 83,6% dos casos, os alvos eram candidaturas negras LGBT+.
Para Alciana Paulino, líder de inteligência do Instituto Plena Cidadania, a ferramenta permite acompanhar uma violência em escala e velocidade que não seriam alcançadas por um monitoramento manual.
“Além de detectar as agressões, queremos compreender os padrões e recorrências, produzindo dados que possam contribuir para proteger quem disputa espaço na política”, afirma o texto de divulgação do estudo.
Denúncias e apoio às candidaturas
A Sentinela recebe prints de mensagens enviadas por inbox ou e-mail e permite o relato de outros episódios de violência. O canal Cuida Mais oferece amparo psicológico às candidaturas atacadas e às suas equipes, com sessões sigilosas e gratuitas.
No dia 23 de setembro, o Instituto Plena Cidadania protocolou uma notícia-crime na Justiça Eleitoral contra três candidatos a deputado federal. A medida envolveu ataques discriminatórios contra deputadas federais candidatas à reeleição, com tentativas de desqualificação baseadas na identidade de gênero.
Gui Mohallem também afirmou que ameaças de estupro coletivo e de morte chegam por e-mail e inbox, em alguns casos por provedores localizados em países sem acordo com o Brasil. Ele relacionou a dificuldade de identificação dos autores à localização desses servidores e lembrou que LGBTfobia é crime no país.
O monitoramento está sendo expandido para fora do Brasil. A Sentinela negocia parcerias para uma possível implementação na Argentina e no México em 2027, com o objetivo de identificar e enfrentar a violência política na América Latina.








